Na edição deste domingo (7), o programa Fantástico revisitou o trágico episódio que culminou na morte de Gerson de Melo Machado, 19 anos, conhecido como Vaqueirinho, após sua invasão ao espaço de uma leoa no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa. A reportagem buscou não apenas reconstruir os momentos que antecederam o ataque fatal, mas também lançar luz sobre o histórico de vulnerabilidade e negligência que marcou a vida do jovem desde a infância.
A matéria exibiu imagens do local, destacando um detalhe crucial: as marcas das garras da leoa, Leona, na árvore utilizada por Gerson para descer até a área onde o animal se encontrava. Segundo a apuração, o tronco serviu de acesso improvisado para o jovem antes do ataque. O repórter enfatizou que o zoológico de João Pessoa iniciou uma revisão de segurança no parque e ressaltou a ironia de Leona, que nasceu no mesmo ano que Gerson e nunca precisou caçar em cativeiro, tornar-se marcada por este evento.
O Fantástico também trouxe à tona o sonho de Gerson de viajar à África com o objetivo de “domar leões”, um desejo confirmado por uma conselheira tutelar que o acompanhou por anos. A reportagem lembrou ainda de outros incidentes de risco em que o jovem se envolveu, como tentativas de se esconder no trem de pouso de aeronaves.
O parque, após o incidente, foi fechado para reavaliação de segurança. A leoa Leona, que havia sido retirada do local imediatamente após a morte de Gerson, retornou ao seu recinto quatro dias depois. Um vídeo divulgado pelo Parque Arruda Câmara mostrou a felina explorando o espaço com cautela, sob monitoramento constante das equipes. Foi reforçado que, devido ao seu comportamento estável, não houve cogitação de eutanásia.
A história de Gerson é marcada por abandono e negligência. O jovem passou por diversas instituições de saúde mental e de acolhimento, sem conseguir estabelecer vínculos estáveis. Desde os sete anos, quando foi observado comendo lixo na escola, demonstrava sinais de sofrimento psíquico severo. Na residência em que vivia, o Conselho Tutelar constatou extrema vulnerabilidade, com responsáveis diagnosticados com esquizofrenia.
Relatos de pessoas próximas a Gerson trouxeram à tona momentos dolorosos, como a rejeição de sua própria mãe: “Eu não sou mais sua mãe. Vá com a moça”, disse ela, ao que o menino respondeu em prantos: “Mas você é minha mãe.” Apesar das tentativas de tratamento e acolhimento, Gerson frequentemente fugia para as ruas, onde ganhou o apelido de Vaqueirinho ao cuidar de cavalos e compartilhar vídeos que, por vezes, eram explorados para engajamento.
A conselheira que o acompanhou lamentou a falta de atenção voltada à pessoa de Gerson, contrastando com a atenção que ele recebia nas redes sociais. “Gerson teve atenção nas redes sociais. Gerson, pessoa, não. Tudo ao redor dele — a espetacularização, o abandono, a falta de tratamento — é sintoma de uma sociedade adoecida”, desabafou.
As câmeras de segurança registraram Gerson ingressando no parque durante a madrugada, por uma área afastada da visitação. Ele se dirigiu sozinho ao setor dos felinos, escalou uma estrutura lateral, atingiu o telhado e desceu pela árvore que dava acesso ao recinto de Leona. Visitantes que estavam no local reagiram com surpresa e gritos de alerta, enquanto outros filmavam a cena. Gerson demonstrou hesitação ao avistar a leoa, mas prosseguiu em direção a ela, tornando o ataque inevitável.
Em resposta ao incidente, o zoológico implementou medidas como reforço de barreiras físicas, instalação de câmeras inteligentes e intensificação de treinamentos. Especialistas, no entanto, alertam que essas ações, embora necessárias, não abordam as causas profundas do problema.