O cenário empresarial brasileiro testemunhou, em ciclos distintos, o encerramento das atividades de duas empresas que marcaram época no setor de eletrodomésticos. Uma delas, mergulhada em um profundo endividamento e acusações de gestão fraudulenta, teve sua falência decretada. A outra, após décadas de atuação e relevância histórica, foi incorporada por uma gigante internacional.
Ambas as trajetórias, embora com desfechos contrastantes, representam um capítulo significativo na história da indústria nacional, impactando consumidores, funcionários e o próprio mercado.
Mabe: O Fim de uma Era Marcado por Dívidas Bilionárias e Fraude
A Mabe, empresa de origem mexicana que se estabeleceu no Brasil em 2003 com a aquisição da Dako, encerrou suas operações no país em 2016 com a falência decretada pela Justiça de São Paulo. Durante seus 21 anos de atuação, a companhia expandiu sua presença de forma expressiva, chegando a ser a segunda maior fabricante de eletrodomésticos no mercado brasileiro, com uma participação de 25%. Em 2009, a empresa fortaleceu seu portfólio ao adquirir as operações da BSH (joint venture entre Bosch e Siemens) por R$ 70 milhões, agregando as marcas Bosch e Continental ao seu leque, que já incluía Mabe, Dako e GE.
O ápice de faturamento da Mabe no Brasil foi registrado em 2007, quando a empresa alcançou R$ 1,2 bilhão. Contudo, o crescimento do mercado não acompanhou as projeções, e a companhia começou a enfrentar sérias dificuldades financeiras. Em maio de 2013, a Mabe solicitou recuperação judicial, alegando incapacidade de honrar seus compromissos com fornecedores e colaboradores. A situação se agravou com o não cumprimento do plano de recuperação judicial aprovado em 2014. Ao final de 2015, a dívida consolidada da empresa atingiu aproximadamente R$ 1,1 bilhão, culminando na decretação de sua falência em 10 de fevereiro de 2016.
O colapso da Mabe gerou grande comoção, com cerca de 1,5 mil funcionários demitidos sem o devido pagamento de verbas rescisórias e 13º salário, o que levou à paralisação das atividades nas fábricas de Campinas e Hortolândia desde dezembro de 2015. Investigações posteriores, segundo o portal Esquerda Diário, apontaram indícios de insolvência premeditada, com a matriz mexicana e sócios brasileiros, incluindo a subsidiária da GE e a família Penteado (ex-donos da Dako), sendo apontados como responsáveis. Em 2019, a Justiça determinou o bloqueio de bens no valor de até R$ 1,1 bilhão de envolvidos, incluindo a GE no Brasil, executivos da família Penteado e controladores da Mabe México. As acusações incluíam confusão patrimonial, gestão fraudulenta, desvio de recursos e apropriação de ativos.
Prosdócimo/Refripar: A Incorporação pela Electrolux e o Legado Industrial
A história da Prosdócimo, uma marca icônica no varejo e indústria de eletrodomésticos no Paraná, teve um desfecho diferente. Iniciada no início do século XX com a fundação das Lojas Prosdócimo por João Prosdócimo em Curitiba, a empresa se tornou referência em bens diversos e eletrodomésticos. Em 1949, a Refrigeração Paraná S/A (Refripar) foi criada, focando na fabricação de produtos da linha branca e comercializando os itens da Prosdócimo, consolidando-se como a segunda maior indústria do setor no Brasil.
As dificuldades financeiras começaram a surgir para a rede de lojas Prosdócimo a partir dos anos 80, culminando na recuperação judicial e venda para o grupo Arapuã em 1984. O ponto de virada para a parte industrial ocorreu em 1996, quando a multinacional sueca Electrolux adquiriu a Refripar e 41% de suas ações por US$ 50 milhões, absorvendo toda a sua estrutura industrial. Inicialmente, os produtos foram comercializados sob a marca combinada Electrolux-Prosdócimo, mas em 1997, a razão social da Refripar foi alterada para Electrolux do Brasil S/A. A descontinuação da marca Prosdócimo foi uma estratégia da Electrolux para consolidar sua posição no mercado brasileiro.
As antigas instalações da Refripar em Curitiba se tornaram a primeira unidade fabril da Electrolux no Brasil. Ao longo dos anos, a multinacional expandiu e modernizou essas estruturas, transformando a região em um de seus principais polos de produção e pesquisa na América Latina. As antigas instalações da Prosdócimo permanecem ativas sob a gestão da Electrolux. Já a rede de Lojas Prosdócimo, após ser vendida ao Grupo Arapuã (que posteriormente faliu), teve seus pontos comerciais ocupados por outros estabelecimentos, demolidos ou transformados em novos empreendimentos imobiliários. Em um desdobramento recente, a marca Prosdócimo foi adquirida em 2023 pela Wap Fresnomaq, que passou a utilizá-la no lançamento de uma linha de eletrodomésticos portáteis, embora em uma escala e proposta distintas de seu período de auge.