A Justiça manteve a prisão de Ademar Farias Cardoso Neto, Cleusimar de Jesus Cardoso e Hatus Moraes Silveira, figuras centrais no caso que abalou o Amazonas e ganhou projeção nacional após a morte da ex-sinhazinha do Boi Garantido, Djidja Cardoso. Em decisão unânime proferida no final de dezembro, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou os pedidos de liberdade apresentados pelas defesas, reforçando a legalidade da custódia preventiva.
Os investigados são parte da Operação Mandrágora, que desvenda um esquema de tráfico de cetamina e formação de associação criminosa em Manaus. Inicialmente condenados a penas superiores a dez anos, Ademar, Cleusimar e Hatus tiveram suas sentenças anuladas pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) devido a um erro processual: laudos toxicológicos foram anexados sem que a defesa tivesse ampla oportunidade de se manifestar.
Contudo, o STJ considerou que a anulação da sentença condenatória não implica liberação automática. O ministro relator, Sebastião Reis Júnior, destacou que os fundamentos da prisão preventiva permanecem válidos, citando a gravidade das condutas, o risco de reincidência criminal e a necessidade de resguardar a ordem pública como justificativas cruciais.
Ademar Cardoso Neto, irmão da artista, responde por tráfico de drogas, associação para o tráfico e organização criminosa. Ele é apontado como um dos líderes de um grupo que promovia o uso indiscriminado de cetamina, um anestésico com aplicações humanas e veterinárias. A defesa alegava a revogação da prisão com base na anulação da sentença, excesso de prazo e fragilidade das provas, mas o STJ manteve a decisão.
As investigações da Polícia Civil do Amazonas apontam que Ademar e sua mãe, Cleusimar Cardoso, teriam fundado e liderado um grupo de caráter religioso e espiritual denominado “Pai, mãe, vida”. Este grupo supostamente pregava a “expansão da consciência” através do uso contínuo de cetamina, substância conhecida por seus efeitos alucinógenos e potencial de dependência. A droga teria sido administrada tanto no ambiente familiar quanto a funcionários e pessoas próximas.
Além de Ademar e Cleusimar, outras cinco pessoas foram condenadas por tráfico e associação para o tráfico. Entre elas estão um ex-namorado de Djidja, comerciantes suspeitos de fornecer a substância, um personal trainer da família e uma gerente de salões de beleza do grupo Cardoso. Djidja Cardoso, encontrada morta aos 32 anos em maio do ano passado, teria sido vítima de overdose de cetamina, de acordo com a principal linha de investigação, embora o laudo oficial ainda não tenha sido divulgado.
Relatos emergiram detalhando um cenário de violência física e psicológica. Uma ex-funcionária da família testemunhou agressões de Cleusimar contra Djidja, descritas como beliscões, torções de braço e tratamento agressivo, enquanto a artista se encontrava debilitada. A testemunha também mencionou um “código” para a aquisição da droga dentro da família, e que familiares que tentavam ajudar Djidja eram impedidos de se aproximar.
Outras denúncias revelaram que pessoas foram atraídas para o círculo dos Cardoso. Verônica da Costa Seixas, gerente de um salão de beleza da família, teria aderido aos ensinamentos do grupo e se submetido a protocolos físicos e espirituais incentivados por Cleusimar e Ademar. A polícia indica que o uso da cetamina era associado a discursos de fé, transcendência e “saída da Matrix”.
Depoimentos sugerem que a participação no grupo resultava em controle emocional, isolamento social e dependência química, estabelecendo uma relação de submissão com os líderes. Mudanças bruscas de comportamento, emagrecimento acentuado e episódios de confusão mental tornaram-se frequentes entre os membros.
Hatus Moraes Silveira, mencionado nas investigações como responsável por orientar rotinas de exercícios físicos e práticas corporais no grupo, teve seu pedido de prisão domiciliar, baseado em alegações de problemas de saúde, negado pelo STJ, que considerou que não houve comprovação de que o tratamento não pudesse ser realizado no sistema prisional.