A recente indicação de Wagner Moura ao Oscar de 2026 por sua performance em “O Agente Secreto” celebra um momento de auge em sua carreira. No entanto, o caminho que levou o ator brasileiro a este patamar de reconhecimento internacional poderia ter sido drasticamente diferente, com suas origens profissionais ligadas ao jornalismo.
Formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Moura iniciou sua trajetória profissional no início dos anos 2000 como repórter em um programa social da TV Bahia, afiliada da Rede Globo. Na época, o trabalho no “Michelle Marie Entrevista”, uma produção com formato similar ao “Programa Amaury Jr.”, servia como sustento enquanto o então jovem profissional explorava seu interesse pela atuação, que floresceu inicialmente no teatro.
A paixão pela arte dramática surgiu na adolescência. Aos 16 anos, Wagner Moura integrou o Grupo Pasmem, um coletivo teatral de Salvador fundado pela professora Cristina Rodrigues em 1996. Apesar dessa inclinação artística, a escolha acadêmica o levou ao curso de Jornalismo na UFBA, onde chegou a exercer a profissão.
O teatro foi o trampolim para o Rio de Janeiro, com a peça “A Máquina”, dividindo o palco com Lázaro Ramos e Vladimir Brichta. O sucesso dessa montagem abriu portas para o cinema nacional, com participações em curtas como “Pop Killer” e “Rádio Gogó”, além de pequenas aparições em longas como “Sabor da Paixão”.
O ano de 2003 marcou um ponto de virada em sua carreira cinematográfica. Wagner Moura protagonizou “Deus é Brasileiro” e “O Caminho das Nuvens”, além de integrar o elenco de “Carandiru”, dirigido por Hector Babenco. Sua participação neste último filme ocorreu de maneira peculiar: impossibilitado de comparecer aos testes presenciais, Moura enviou uma gravação de áudio com sua voz lendo trechos do livro de Dráuzio Varella. A expressividade de sua voz chamou a atenção de Babenco, que o convocou para um encontro em São Paulo.
Na televisão, a estreia se deu com um convite de Antônio Fagundes para a reedição do seriado “Carga Pesada”, onde interpretou Pedrinho, filho do personagem de Stênio Garcia. Seguiram-se trabalhos em “Sexo Frágil”, série criada por Luís Fernando Veríssimo e dirigida por João Falcão, e participações em episódios de “A Grande Família”.
A primeira novela veio em 2005, com “A Lua Me Disse”, escrita por Miguel Falabella, onde interpretou o galã Gustavo Bogari. Em seguida, emendou a minissérie “JK”, dando vida ao personagem-título em sua juventude.
O ano de 2007 consolidou Wagner Moura como um fenômeno nacional. Na novela das nove “Paraíso Tropical”, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, seu personagem, o vilão Olavo Novaes, ganhou destaque. Inicialmente cotado para o papel, Selton Mello recusou por conflitos de agenda, e Dennis Carvalho, que já havia trabalhado com Moura em “JK”, indicou seu nome. A intensa relação de Olavo com a personagem Bebel, interpretada por Camila Pitanga, tornou-se um dos pontos altos do folhetim, fruto de uma sugestão dos próprios atores para intensificar o afeto entre os personagens.
Paralelamente, “Tropa de Elite”, dirigido por José Padilha, começava a causar grande impacto. Na pele do Capitão Nascimento, do BOPE, Moura entregou uma atuação visceral. Originalmente, o protagonista seria o aspirante Mathias, mas durante a edição, a equipe percebeu que a perspectiva de Nascimento conferiria a energia desejada. A produção foi remontada, e Moura precisou gravar a narração às pressas.
“Tropa de Elite” alcançou sucesso estrondoso de bilheteria, com premiações no Brasil e na Europa, gerando debates sobre pirataria, violência urbana e abordagens policiais. A atuação simultânea em “Paraíso Tropical” e “Tropa de Elite” elevou Wagner Moura ao status de um dos maiores nomes de sua geração, sendo eleito “Homem do Ano” pela revista Vogue em 2007.
Após “Paraíso Tropical”, Wagner Moura não retornou à Rede Globo, optando por focar em projetos no cinema nacional e em sua carreira internacional. Recusas a propostas para a novela “Insensato Coração” em 2009 antecederam o sucesso de “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro” em 2010, que manteve por uma década o recorde de maior bilheteria da história do Brasil.
Em 2013, a revista GQ o elegeu “Homem do Ano” na categoria cinema. No mesmo ano, estreou em Hollywood com “Elysium”, ao lado de Matt Damon e Jodie Foster, interpretando o personagem Spider. Em 2015, “Narcos”, série da Netflix onde deu vida ao traficante Pablo Escobar, rendeu-lhe uma indicação ao Globo de Ouro em 2016, apesar de críticas pontuais ao seu sotaque espanhol. As filmagens de “Narcos” o levaram a recusar papéis em “Sete Homens e um Destino” e a indicar Vladimir Brichta para o papel principal em “Bingo: O Rei das Manhãs”.
Em 2021, Wagner Moura tornou-se membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, obtendo direito a voto no Oscar. No mesmo ano, dirigiu “Marighella”, seu primeiro longa como diretor, que estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Berlim e obteve grande sucesso no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2022, com oito troféus.
A partir de 2022, Moura protagonizou a série “Shining Girls”, integrou o elenco de “Civil War” e dublou o Lobo Mau em “Gato de Botas 2”. Sua participação em “The Gray Man”, um dos filmes mais caros da Netflix, ao lado de Ryan Gosling e Chris Evans, foi marcada por uma intensa preparação física, com a perda de vinte quilos para interpretar o excêntrico Laszlo Sosa, sendo elogiado pelos diretores Joe e Anthony Russo como “um ator incrível, um dos mais talentosos do mundo”.
A consagração internacional se intensificou com “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Ambientado no Recife dos anos 1970, o filme, que disputou a Palma de Ouro em Cannes, rendeu a Wagner Moura o Prêmio de Interpretação Masculina no festival, tornando-o o primeiro sul-americano a conquistar tal feito. Adicionalmente, recebeu prêmios do New York Film Critics Circle Awards e do Festival Internacional de Cinema de Chicago, além de indicações a importantes premiações como o Critics Choice Awards e o Gotham Awards.
O ápice de sua trajetória internacional chegou em janeiro de 2026, com a conquista do Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama, seguido pela tão esperada indicação ao Oscar na mesma categoria, coroando uma jornada que começou longe dos holofotes de Hollywood e o transformou em um dos atores brasileiros de maior projeção global.