Tradicionalmente, o futebol brasileiro opera como um celeiro, exportando seus craques para ligas mais abastadas. Figuras de renome como Neymar, Endrick e Estêvão frequentemente seguem diretamente para a Europa em tenra idade. Talentos menos badalados encontram seu destino em mercados financeiramente robustos, mas geograficamente periféricos, como o Oriente Médio, os Estados Unidos ou a Ásia.
Em contrapartida, o Brasil historicamente acolhe jogadores de destaque oriundos de centros com menor peso econômico e midiático no cenário global. Essa dinâmica se manifesta de forma mais acentuada com a chegada de atletas sul-americanos, com especial ênfase em colombianos, uruguaios, paraguaios e, em maior volume, argentinos.
Paralelamente, observa-se que os clubes brasileiros nem sempre dedicaram a mesma atenção a outros continentes, como a Ásia e, notadamente, a África. Contudo, essa realidade parece estar em plena transformação, impulsionada por um trabalho cada vez mais dedicado à prospecção de talentos, tanto para as categorias de base quanto para o elenco profissional.
Embora a presença de jogadores africanos no futebol profissional brasileiro nunca tenha sido massiva, nas categorias de base a escassez era ainda mais pronunciada. Uma das razões apontadas para essa disparidade residia no custo elevado para monitorar jovens talentos do outro lado do Atlântico, em contraste com a vasta oferta de jogadores formados nas bases e nos escalões inferiores do futebol nacional.
Entretanto, a noção de ‘custo’ tem cedido espaço à de ‘investimento’. Embora a travessia transatlântica exija um desembolso maior, ela abre portas para a descoberta de um perfil de atleta diferenciado. Muitas vezes, essa estratégia permite ‘furar a fila’ do mercado europeu, que tende a focar em jogadores africanos já com formação consolidada e, consequentemente, com valores de mercado expressivos.
Em 2023, Luiz Carlos, então gerente geral da base do Flamengo, ressaltou a importância de expandir o raio de atuação: “Pelo tamanho do Flamengo e pelo nível de jogadores que queremos ter na base, não podemos nos limitar. Temos que observar tudo. Temos observação na Europa, na América do Sul e temos visto cada vez mais o sucesso de jogadores africanos, que saem cedo da África, fazem a base na Europa e despontam lá. Por que não fazer aqui?”, declarou à Itatiaia.
No mesmo ano, João Paulo Sampaio, coordenador da base do Palmeiras, detalhou a estratégia do clube em expedições a Gana, Senegal e Camarões: “Mandamos dois scouts para a África, foram para três países. Na América do Sul, a gente só não conseguiu trazer argentino ou uruguaio porque os que a gente quer já estão na Europa ou em um clube grande. E aí precisa de dinheiro e de comprar. Na base, normalmente a gente não compra, mas traz para empréstimo. Então a gente mudou o foco para a África”.
Esses esforços já começam a render frutos. O clube carioca, por exemplo, integrou o nigeriano Shola às suas categorias de base naquele ano. Já o Palmeiras inscreveu Koné, zagueiro marfinense de 18 anos, contratado no final da temporada passada, para o Campeonato Paulista de 2025. No Atlético-MG, o meia guineense Mamady Cissé, captado em um torneio de juniores na Nigéria, tem se destacado na equipe sub-20.
O Internacional conta com dois talentos ganeses em seu elenco sub-20: os volantes Denis Marfo e Benjamin Arhin, ambos contratados em 2025. Residem no CT do clube e recebem aulas de português para facilitar a adaptação. Arhin, inclusive, já fez sua estreia no time profissional em partida válida pelo Campeonato Gaúcho.
No que tange ao futebol profissional, a inserção de atletas africanos ainda ocorre de maneira mais gradual. Em 2025, 19 jogadores do continente foram registrados em clubes das quatro divisões do futebol brasileiro, com apenas quatro deles atuando na Série A. Para efeito de comparação, a elite nacional contava com 45 argentinos e 27 uruguaios.
O ranking de jogadores africanos por divisão é liderado pela Série D, com oito representantes. A Série C registrou dois, enquanto a Série B contou com cinco atletas do continente. A pesquisa evidencia que países como Angola, Senegal, Costa do Marfim e Gana ainda estão distantes de ter uma presença significativa na elite do futebol brasileiro.
Apesar dos números ainda modestos, há sinais de uma mudança de paradigma. O zagueiro angolano Bastos, do Botafogo, por exemplo, tornou-se o primeiro jogador africano a conquistar o Campeonato Brasileiro, repetindo o feito na Libertadores no mesmo ano. A expectativa é que outros atletas sigam seus passos e conquistem relevância em território nacional.