A Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Botafogo enfrenta um momento crítico de instabilidade financeira, com repercussões significativas na administração do departamento de futebol e no planejamento estratégico do clube. O endividamento total da entidade ultrapassa a marca de R$ 1,5 bilhão, sendo que cerca de R$ 700 milhões correspondem a obrigações de curto prazo. Essas dívidas incluem compromissos assumidos em negociações de atletas e valores gerenciados sob o guarda-chuva da Recuperação Extrajudicial iniciada em 2023.
No epicentro dessa crise está John Textor, acionista majoritário da SAF. O empresário tem se envolvido em batalhas judiciais com credores e busca ativamente soluções para melhorar o fluxo de caixa a curto prazo. Textor sinalizou a intenção de realizar um aporte financeiro de aproximadamente R$ 270 milhões, visando dinamizar as operações do clube. Esse capital adicional seria destinado a fortalecer o capital de giro e a regularizar pendências financeiras, como a dívida com o Atlanta United pela contratação de Thiago Almada, que acarretou em uma punição de transfer ban imposta pela FIFA.
Apesar da promessa de aporte, a diretoria do Botafogo demonstra cautela quanto à concretização e ao cronograma de recebimento dos recursos. A incerteza em torno da entrada dos cerca de 50 milhões de dólares levanta a possibilidade de o clube não conseguir reverter a sanção da FIFA a tempo de atuar na próxima janela de transferências, que se encerra no início de março. Diante deste cenário, a gestão do clube trabalha em estratégias para manter a força do elenco atual, priorizando a permanência de jogadores e a manutenção do potencial competitivo.
Paralelamente às dificuldades financeiras, John Textor enfrenta complexas disputas societárias relativas à Eagle Football e ao fundo Ares Management. O Ares, que se tornou credor após investir na aquisição do Lyon em 2022, detém cláusulas contratuais que lhe conferem o direito de assumir o controle da Eagle em caso de inadimplência. Segundo informações divulgadas, o fundo já exerceu este direito e deve afastar Textor da gestão nos próximos dias.
No âmbito do Botafogo, Textor mantém sua posição na SAF amparado por uma liminar concedida pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que suspendeu alterações societárias. Contudo, a eventual revogação dessa decisão poderá alterar o controle da SAF. No Lyon, o empresário foi afastado da administração em decorrência de desentendimentos com outros sócios da Eagle e questionamentos sobre sua relação com a Liga Francesa. A presidência do clube francês foi assumida por Michelle Kang.
A relação entre as partes continua marcada por divergências. Textor alega que Kang se distanciou do modelo de gestão de múltiplos clubes da Eagle, que operava com um caixa unificado, e aponta a falta de progresso no pagamento de uma dívida de aproximadamente 34 milhões de euros (cerca de R$ 211 milhões) do Lyon para com o Botafogo.
Fontes ligadas ao Botafogo Social, que detém 10% das ações da SAF, descrevem um quadro de extrema urgência. A avaliação é que a continuidade do projeto está intrinsecamente ligada à injeção de novos recursos e à resolução dos impasses dentro da Eagle Football. A possibilidade de descumprimento de obrigações já havia sido previamente sinalizada por João Paulo Magalhães, presidente do clube, em declarações concedidas anteriormente.
Atualmente, a SAF do Botafogo acumula atrasos de dois meses no pagamento de direitos de imagem aos atletas, além de pendências no recolhimento do FGTS. A diretoria está empenhada em regularizar a situação enquanto aguarda a efetivação do aporte financeiro anunciado por John Textor.