Registros divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam que Jeffrey Epstein, o bilionário condenado por crimes sexuais e que faleceu na prisão em 2019, nutriu interesse em adquirir agências de modelos no Brasil. O objetivo, segundo as informações, seria ter controle sobre as jovens agenciadas para fins ilícitos. Após sondar a Ford Models, Epstein direcionou suas atenções para a Joy Models, sediada em São Paulo.
E-mails interceptados e tornados públicos indicam que Ramsey Elkholy, intermediário de Epstein, chegou a se reunir com os proprietários da Joy Models, Liliana Gomes e Marcelo Fonseca. Um desses encontros teria ocorrido em um evento de bastidores do desfile da Victoria’s Secret, de acordo com o jornal O GLOBO e o EXTRA.
As negociações preliminares datam de agosto de 2016. Epstein demonstrava intenção de superar barreiras legais e fiscais para concretizar a aquisição. Elkholy, em comunicação com o bilionário, mencionou a dificuldade para estrangeiros possuírem controle total de empresas brasileiras, mas indicou a busca por “outros meios”. Epstein, por sua vez, instruiu o intermediário a obter o valor para comprar a totalidade da agência.
As reuniões, inicialmente agendadas para setembro de 2016, foram adiadas. Em outubro do mesmo ano, Elkholy relatou a Liliana Gomes e Marcelo Fonseca as complexidades da negociação com a Ford Models, cujos dados financeiros e passivos fiscais eram questionáveis. Ele propôs um encontro com os donos da Joy Models em Nova York, caso estivessem disponíveis, visando agilizar os trâmites caso a decisão fosse avançar com o contrato.
Em janeiro de 2017, Epstein cobrou atualizações de Elkholy. O intermediário descreveu que os planos futuros da Joy Models ainda não estavam claros, mas antecipou que Marcelo Fonseca poderia tentar impressionar Epstein com “o jeitinho brasileiro”, o que ele interpretou como uma tendência a “exagerar e inflar números”. Elkholy sugeriu que, se o interesse de Epstein fosse apenas pela expansão de negócios e pelo acesso a modelos, o resultado final poderia ser satisfatório.
Procurados, Liliana Gomes e Marcelo Fonseca, proprietários da Joy Models, confirmaram os contatos com Elkholy, mas negaram que o nome de Jeffrey Epstein tenha sido mencionado. A agência ressaltou que nunca esteve à venda. “É repugnante”, declarou Liliana Gomes, ao afirmar que recusou a proposta de investimento por não ter intenção de vender o negócio.
Em relação à Ford Models, o intermediário de Epstein sugeriu que uma associação com um concurso de modelos seria vantajosa, pois garantiria acesso a todas as participantes, permitindo a Epstein “decidir o que fazer com elas”. Ele mencionou a possibilidade de levar as jovens para os EUA, Paris ou Caribe. O CEO da Ford Models, Decio Restelli Ribeiro, negou qualquer relação da agência com Epstein, afirmando que a empresa “nunca esteve à venda” e que se sentiu “enojado” com a associação da marca a “interesses escusos”.
Jeffrey Epstein, que se autodenominava gestor de fortunas, foi apontado em investigações por abuso e exploração sexual de menores. Após um acordo judicial em 2008 que lhe garantiu uma pena reduzida, ele foi preso novamente em 2019 sob acusações federais de tráfico sexual. Sua morte na prisão, em agosto do mesmo ano, impediu a conclusão do julgamento.