Após a projeção de A História do Som, obra do cineasta Oliver Hermanus, é quase inevitável traçar paralelos com O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Ambos os filmes abordam, de maneiras distintas, o desabrochar de um afeto profundo e singular entre duas almas, uma força que transcende a lógica e se manifesta de forma avassaladora.
Contudo, as semelhanças terminam aí. Enquanto o aclamado longa de Lee, lançado há duas décadas, optou por uma narrativa que entrelaçava as perspectivas de seus protagonistas, com diálogos e atuações carregadas de uma intensidade palpável, A História do Som adota uma abordagem mais introspectiva. O filme de Hermanus concentra-se predominantemente em um dos personagens, tecendo uma atmosfera de sobriedade que ressoa profundamente, especialmente nos momentos de silêncio.
A trama nos transporta para 1917, onde acompanhamos o encontro de dois jovens no Conservatório de Música da Nova Inglaterra. Após o término da Primeira Guerra Mundial, a dupla embarca em uma jornada pela zona rural do Maine no inverno de 1920, com a missão de registrar canções folclóricas de seus conterrâneos.
É importante ressaltar que o ritmo deliberado de A História do Som pode não agradar a todos os espectadores. No entanto, para aqueles que se permitirem ser envolvidos por sua cadência, a recompensa será uma experiência cinematográfica rica e substancial, impulsionada pelas performances excepcionais de Paul Mescal e Josh O’Connor.
A distinção entre as atuações de Mescal e O’Connor é particularmente notável, cada um oferecendo uma interpretação única para a complexa tapeçaria de amor e paixão que o filme constrói.
Josh O’Connor, reconhecido mundialmente por sua atuação como o Príncipe Charles na série The Crown, da Netflix, que lhe rendeu um Emmy, demonstra uma presença magnética em cena. Sua capacidade de cativar o público com uma expressividade sutil, quase etérea, é um dos pilares do filme. Essa mesma aura pôde ser apreciada em produções como o romance de época Emma. e o mais recente drama esportivo Rivais, de Luca Guadagnino.
Se O’Connor personifica uma força instintiva e envolvente, Paul Mescal opera com uma precisão cirúrgica, perfeitamente alinhada com a visão de Hermanus. O personagem de Mescal é, de fato, o eixo central da narrativa, vivenciando um amor que floresceu, se concretizou, mas que, por diversas razões, não se consolidou em uma vida compartilhada. Essa nuance é crucial para a proposta do filme, que não se detém na rotina do cotidiano, mas sim no impacto duradouro de momentos singulares, como um eco sonoro que perdura na memória.
Através de expressões faciais contidas, Mescal transmite um amargor latente, uma força que o retém mesmo diante de impulsos externos. É nessa contenção que A História do Som encontra seu triunfo. Os olhares melancólicos do ator irlandês, que remetem à sua atuação em Aftersun, revelam a ânsia por uma libertação que o amor poderia proporcionar, uma fuga de uma vida marcada por limitações, perdas e as cicatrizes indeléveis da guerra.
Graças à colaboração entre Paul Mescal e Josh O’Connor, A História do Som se configura como uma experiência profundamente sensível. O filme sugere que os sons e ruídos, sejam eles naturais ou criados pelo homem, carregam consigo histórias. Histórias invisíveis, mas onipresentes, e, em alguns casos, de uma beleza silenciosamente dilacerante.