Em meio à repercussão de comentários considerados transfóbicos feitos pelo apresentador Ratinho à deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), a jornalista Rachel Sheherazade utilizou suas redes sociais para discorrer sobre o conceito de identidade de gênero. A declaração de Ratinho ocorreu após a eleição de Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados.
Sheherazade iniciou sua explanação citando a filósofa Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Segundo a jornalista, a pensadora buscava ressaltar que a condição feminina transcende a biologia, sendo também moldada por fatores sociais, culturais e históricos na construção da identidade.
“Os papéis atribuídos ao masculino e ao feminino não são inatos, mas sim construções impostas desde a infância”, explicou Sheherazade, argumentando que a sociedade define e perpetua esses papéis através da educação, cultura e religião.
A polêmica teve início quando Ratinho, durante seu programa, questionou a escolha de Erika Hilton para presidir a comissão. “Teve uma votação hoje, e deram a Comissão da Mulher para uma mulher trans. Eu não achei muito justo, não. Tem tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans?”, declarou o apresentador ao vivo.
Em sua manifestação, Sheherazade detalhou como meninos e meninas são socializados de maneiras distintas, com as primeiras sendo ensinadas à submissão e os segundos, à assertividade e à conquista. “Meninas são condicionadas a falar baixo, a nunca se impor, nunca questionar. Sempre aceitas, sempre ser útil, ser gentil […]. Enquanto isso, os meninos são ensinados a agredir, a se defender, a se posicionar, explorar, conquistar”, pontuou.
A jornalista foi enfática ao abordar a questão das pessoas trans e travestis. “Se é uma construção social, é preciso entender que trans e travestis também são mulheres porque são pessoas que vivem socialmente como mulheres e porque são pessoas que se identificam como mulheres”, afirmou. “Ser ou não ser mulher não depende do olhar do outro, do parecer de quem está fora, nem muito menos da permissão de um animador de auditório”, concluiu, em clara referência às falas de Ratinho.
A controvérsia se intensificou com os comentários de Ratinho, que prosseguiu em sua fala questionando a identidade de gênero de Erika Hilton. “Ela não é mulher, ela é trans. Eu não tenho nada contra trans, mas se tem outras mulheres, mulher mesmo… Mulher para ser mulher tem que ser mulher, gente. Eu até respeito, respeito todo mundo que tem comportamento diferente, está tudo certo. Agora, para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias”, disse o apresentador.