Thiago Schutz, conhecido nas redes sociais como ‘Calvo do Campari’ e uma figura proeminente do movimento ‘red pill’, foi detido na manhã deste sábado (29) em Salto, interior de São Paulo, sob acusação de violência doméstica. Após ser levado à delegacia e autuado em flagrante, Schutz passou por audiência de custódia e foi liberado provisoriamente, com a determinação de manter distância da vítima, que se encontra em estado de choque.
Um vídeo que tem circulado online expõe ameaças proferidas por Schutz, de 37 anos, contra sua namorada, Lais Gamarra, de 30 anos. De acordo com o boletim de ocorrência, Gamarra conseguiu solicitar auxílio policial enquanto tentava se desvencilhar do homem, descrito como um ‘coach’ e admirador da extrema-direita. Policiais militares a encontraram na via pública com evidentes sinais de agressão. Nas gravações, a voz de Gamarra expressa desespero, enquanto Schutz, em tom jocoso, a incentiva a contatar as autoridades. As informações iniciais sobre o caso foram divulgadas pelo blog Porta de Delegacia.
Nayara Thibes, advogada que representa a vítima, que é formada em Direito, compartilhou em seu perfil no Instagram uma nota de repúdio da OAB referente ao incidente. A polícia informou que Gamarra foi encaminhada a um hospital municipal para exames. Em comunicado oficial, a defesa da vítima revelou que, além de agressões físicas, sua cliente também foi alvo de uma tentativa de estupro por parte de Thiago Schutz.
O apelido ‘Calvo do Campari’ ganhou notoriedade há aproximadamente dois anos e meio, a partir de vídeos virais em que o indivíduo se apresenta como um ‘coach red pill’. Em suas pregações, Schutz defende que homens priorizem relacionamentos com mulheres jovens (abaixo dos 30 anos), não feministas e sem filhos, com foco exclusivo em relações sexuais. O nome de Thiago Schutz foi associado à denúncia após agredir verbalmente e ameaçar de morte a atriz Lívia La Gatto.
Curiosamente, a ascensão de Schutz como ‘conselheiro’ ocorreu após sua participação em um reality show de relacionamentos. No programa ‘O crush perfeito’, ele demonstrou interesse por Joelma Handziuk, uma mulher de 50 anos. Essa postura contrasta com suas declarações públicas, nas quais sugere que mulheres acima dos 30 anos perdem valor social. Durante a atração, ele competiu com outros quatro homens pelo afeto de Handziuk, que é casada, mãe de dois filhos adultos e declaradamente feminista. Ela, no entanto, não o escolheu, optando por outro participante.
Na época do reality, ele utilizava o nome de registro Thiago Schoba. Sua participação também o colocou sob escrutínio, com acusações de golpes contra escritores iniciantes. Schutz, então à frente de uma editora de livros, foi alvo de denúncias sobre práticas fraudulentas.
Antes da estreia do programa, uma usuária do Twitter identificada como Maysa acusou o empresário de ‘roubar’ um livro escrito por ela. Em sua postagem, relatou que, aos 15 anos, foi lesada pelo então proprietário da editora Nova Editorial, que publicou sua obra, mas não repassou os lucros nem entregou os exemplares comprados. A usuária mencionou que ele estava prestes a aparecer em um programa de televisão.
O apelido ‘Calvo do Campari’ surgiu de um episódio de podcast onde Schutz narra uma situação envolvendo uma mulher que oferece uma bebida a um homem que ingere Campari. Ele exemplifica a dinâmica de poder em relacionamentos, onde a mulher tenta, segundo ele, ‘mudar o cara’ ou ‘colocá-lo debaixo dela’, interpretando isso como um ‘teste’.
Após Lívia La Gatto, atriz, realizar uma paródia ironizando ‘O Calvo do Campari’, Thiago Schutz enviou uma mensagem direta pelo Instagram, concedendo 24 horas para a remoção do conteúdo, sob pena de processo ou ‘bala’. Livia denunciou a ameaça em suas redes sociais, relatando também mais de dez tentativas de contato telefônico por parte de Schutz. Ela registrou um boletim de ocorrência, e o Ministério Público denunciou Schutz por ameaça e violência psicológica. A Justiça de São Paulo determinou que ele mantivesse uma distância mínima de 300 metros da atriz. O processo foi suspenso e poderá ser reaberto em caso de novas infrações, como a recente agressão à sua namorada.
A filosofia associada ao ‘red pill’, propagada por Schutz em seu material, delineia um perfil de ‘mulher ideal’ e sustenta a superioridade masculina. O termo ‘red pill’ tem origem no filme ‘Matrix’, onde o protagonista escolhe entre a pílula vermelha (para ver a verdade) e a azul (para permanecer na ilusão). O movimento ‘red pill’, do qual Schutz é adepto e divulgador, popularizou-se a partir dos anos 2000, pregando que homens devem evitar casamentos e namoros, focando apenas em relações sexuais, sob a alegação de que mulheres não são fiéis nem possuem bom caráter em relação aos homens.