Aos 32 anos, Gabriela Loran consolida seu nome no cenário nacional com a personagem Viviane na novela ‘Três Graças’. A atriz, que em outubro de 2022 expressou o desejo de ser protagonista de uma novela das nove, vê seu talento reconhecido após a interpretação que tem roubado a cena. Sua jornada, marcada por desafios desde a infância em um bairro humilde de São Gonçalo, é um testemunho de resiliência e determinação.
Gabriela Loran sempre demonstrou uma forte convicção sobre seu futuro. “Sempre fui uma criança muito artística e esperançosa. Tinha uma imaginação muito fértil. E foi essa imaginação que me salvou de muita coisa. Pratico muito a lei da atração: quando eu boto na minha cabeça uma coisa, eu já moldo exatamente como vai acontecer”, revelou a atriz em outra ocasião, evidenciando sua capacidade de visualizar e trabalhar por seus objetivos.
Criada em um lar com um pai motorista de ônibus e uma mãe ex-funcionária de supermercado, Gabriela enfrentou as adversidades comuns a muitas crianças LGBTQIA+, incluindo o bullying no ambiente escolar e a resistência familiar. O banheiro de casa tornou-se um refúgio em momentos de angústia: “O banheiro foi a minha válvula de escape muitas vezes. Era lá que eu chorava, ajoelhava e falava: ‘Deus, por que você me fez diferente?’”, compartilhou em entrevista ao podcast QueenCast. Paradoxalmente, era nesse mesmo espaço que sua veia artística florescia, com momentos de encenação diante do espelho. As visitas à casa da tia ofereciam um ambiente de aceitação, onde podia brincar livremente.
A relação com o pai, que lutava contra o alcoolismo, foi complexa. Gabriela relatou que, apesar das dificuldades causadas pela bebida, nunca nutriu ódio por ele, compreendendo que a doença o transformava. “Ele sempre foi um pai maravilhoso, mas quando bebia, era quase como uma questão espiritual, e por isso eu nunca tive ódio dele, porque eu sabia que não era ele ali”, explicou. Atualmente, pai e filha mantêm uma relação de profunda parceria e apoio mútuo. “Ele foi o primeiro a me chamar de filha, a me respeitar depois da minha transição. Ele me liga quase todos os dias para perguntar se eu estou bem, se estou precisando de alguma coisa”, disse, com orgulho, em seu canal no YouTube.
A mãe, Maria das Dores, levou mais tempo para assimilar a transição da filha, movida por receio e instinto protetor. “A primeira vez que meus pais viram que eu sou uma mulher trans foi na minha formatura. Fui ensinando a eles na medida do possível”, contou Gabriela. Sua mãe, inspirada pela filha, concluiu a graduação em Direito aos mais de 50 anos. “É muito bonito saber que eu construí essa história com meus pais. Eu tive muita paciência, mas eles me ajudaram a me construir como mulher. Quando erravam meu pronome, me chamando de ‘ele’, eu ia corrigindo. Assim, fui modificando os dois: com carinho e atenção”, relatou a atriz.
A busca pela independência e o início da transição de gênero ocorreram aos 23 anos, em 2016, quando Gabriela já morava sozinha. Deixou o lar aos 19 anos para perseguir o sonho de atuar, mudando-se para a Tijuca e ingressando em Artes Cênicas na CAL com auxílio do Fies. Para se sustentar, trabalhou como garçonete em um restaurante no mesmo shopping onde, no passado, foi impedida de usar o banheiro feminino. “Já fui humilhada muitas vezes, mas eu pego essa humilhação e a transformo em mais forças para vencer”, declarou, lembrando também de sua formação em Segurança do Trabalho e do início da faculdade de Psicologia.
A cirurgia de redesignação sexual, realizada na Tailândia em janeiro do ano passado, exigiu um planejamento financeiro de R$ 117 mil. A inspiração para esse passo veio ainda na infância, ao ver Roberta Close na televisão. “Foi a primeira vez que vi que eu poderia crescer e virar mulher. (…) Eu já tinha certeza de que faria [a cirurgia], mas não tinha dinheiro. Precisei juntar o valor, preparar meu corpo e minha mente”, confidenciou no podcast.
A carreira artística de Gabriela decolou a partir de 2018, após um período de extrema dificuldade. Formada e atuando em uma peça, morava em um hostel em Santa Teresa, enfrentando fome e vendendo roupas usadas e fazendo tranças na praia para sobreviver. A oportunidade surgiu com um teste para “Malhação”, seguido por papéis em “Cara e Coragem” (2022) e uma participação em “Renascer”. Paralelamente, construiu uma carreira como influenciadora digital, utilizando os rendimentos para erguer uma casa para a família e adquirir um carro adaptado para o pai.
Refletindo sobre sua trajetória, Gabriela emociona-se ao constatar o caminho percorrido. “Não tenho problema nenhum com o meu passado. Sou muito grata ao Gabriel, por tudo o que ele viveu. Porque ele cedeu espaço para que a Gabriela florescesse”, afirmou. Com a atuação em ‘Três Graças’ aclamada pela crítica e pelo público, especialmente nas cenas com o par romântico interpretado por Pedro Noves, a atriz agora mira alto: “Quero ganhar um Oscar”.