A atriz Gabriela Loran, que tem conquistado o público com sua performance como Viviane na novela “Três Graças”, trilhou um caminho marcado por desafios e resiliência antes de alcançar o sucesso. Com 32 anos, Loran demonstra uma clareza de propósito que a acompanha desde a infância em um bairro humilde de São Gonçalo, no Rio de Janeiro.
A ambição de Loran já era evidente em outubro de 2022, quando declarou o desejo de ser protagonista de uma novela das nove. Embora Viviane não ocupe o papel principal, a personagem se tornou um dos grandes destaques da trama, evidenciando o talento da atriz. Ela atribui sua determinação à força de sua imaginação e à prática da lei da atração, acreditando na capacidade de moldar o futuro com o poder do pensamento.
Criada como filha de um motorista de ônibus e de uma ex-funcionária de supermercado, Gabriela enfrentou as adversidades comuns a muitas crianças LGBTQIA+, incluindo o bullying na escola e a resistência em casa. O banheiro se tornou um refúgio, onde expressava suas angústias e buscava consolo em orações. Paradoxalmente, era ali que sua veia artística se manifestava, com momentos de encenação diante do espelho. As visitas à casa da tia ofereciam um espaço seguro para brincar e ser quem era, sem julgamentos.
A relação com o pai, que lutava contra o alcoolismo, foi complexa. Loran descreve o pai como um homem maravilhoso, mas que se transformava sob o efeito do álcool. Essa dualidade, no entanto, não gerou ressentimento, pois ela compreendia que a doença o dominava. Atualmente, a relação é de profunda parceria e afeto, com o pai sendo um grande apoiador de sua transição e de sua vida.
A mãe, Maria das Dores, demorou um pouco mais para assimilar a transição da filha, movida pelo medo e pelo desejo de protegê-la. A formatura de Gabriela marcou o momento em que os pais a viram pela primeira vez como a mulher que ela é. Loran relata ter guiado seus pais com paciência e carinho, corrigindo gentilmente os pronomes e ajudando-os a compreendê-la. Inspirada pela filha, Maria das Dores ingressou na faculdade de Direito aos mais de 50 anos, um feito que emociona a atriz.
A jornada de independência de Gabriela Loran começou aos 19 anos, quando deixou o lar para cursar Artes Cênicas na CAL, beneficiada pelo Fies. Para se manter, trabalhou como garçonete em um shopping onde, ironicamente, já havia sido expulsa do banheiro feminino. Essa humilhação se tornou um motor para sua determinação em vencer. Além da carreira artística, ela também se formou em Segurança do Trabalho e iniciou Psicologia.
A cirurgia de redesignação sexual, um sonho acalentado desde a infância ao ver Roberta Close na TV, foi realizada na Tailândia em janeiro do ano passado, após uma árdua jornada de economia para arrecadar os R$ 117 mil necessários. A atriz relata a importância de preparar o corpo e a mente para o procedimento.
O início da carreira artística foi marcado por dificuldades, incluindo períodos de fome e a necessidade de vender roupas usadas e fazer tranças na praia para sobreviver. A virada ocorreu em 2018, após um teste para “Malhação”. Desde então, participou de novelas como “Cara e Coragem” e “Renascer”, além de ter encontrado na publicidade online uma nova fonte de renda. Gabriela conseguiu construir uma casa para sua família e adquirir um carro adaptado para o pai, que possui limitações motoras.
Ao refletir sobre seu passado, Loran expressa profunda gratidão ao “Gabriel” que viveu antes, por ter aberto caminho para que a “Gabriela” florescesse. Seu sucesso atual, coroado por elogios e cenas de destaque em “Três Graças”, a impulsiona a alçar novos voos: seu próximo objetivo é conquistar um Oscar.