Em uma rara e profunda conversa durante sua passagem pela Ilha de CARAS em julho de 2014, o icônico novelista Manoel Carlos, então prestes a encerrar sua vitoriosa carreira na televisão, abriu seu coração sobre as perdas que moldaram sua existência. O mestre da teledramaturgia brasileira, que nos deixou no último sábado (10) aos 92 anos, compartilhou a dor indelével da morte de três de seus filhos.
Ao ser questionado sobre como lidava com o luto pela partida de seus filhos mais velhos, Maneco, como era carinhosamente conhecido, respondeu com uma franqueza que comoveu: “É difícil e absolutamente intransponível como emoção. Acredito que nada se iguale a isso. Quando acontece, você até para de chorar, mas não de sangrar. A dor é permanente”. Ele acrescentou, com a voz embargada pela saudade: “Na idade em que estou, já perdi quase todos os meus melhores e meus primeiros amigos”.
Naquele encontro, ao lado da neta Sofia e de sua esposa Beth Almeida, Manoel Carlos também ponderou sobre o fim de seu ciclo como autor de novelas, mas sem renunciar ao seu inesgotável desejo de criar. “Amo televisão e talvez seja a pessoa que há mais tempo escreve para este veículo, faço isso desde 1951, mas realmente prefiro parar enquanto tenho condições de fazer. Não desejo me aposentar, quero escrever obras menores, inclusive tenho minisséries prontas”, declarou.
Mesmo diante de críticas à sua última novela, “Em Família”, que marcava sua despedida da Globo, o autor exibia serenidade. “Agradeço a toda a equipe e aos atores, que estavam primorosos. Me impressionou também a qualidade do elenco jovem do início da novela”, disse, elogiando o trabalho de todos.
Manoel Carlos, que iniciou sua carreira em 1951, atribuía seu estilo de escrita, muitas vezes visto como caótico, à sua formação na televisão ao vivo. “Meu processo de trabalho é o caos. Escrevo para a TV há mais de 60 anos sem planejamento. Sou fruto da televisão ao vivo, onde tudo era feito improvisadamente”, explicou, ressaltando que a escrita sempre esteve intrinsecamente ligada à sua vida familiar.
O adeus a Maneco ocorreu no Rio de Janeiro, após uma internação no Hospital Copa Star, onde tratava a Doença de Parkinson. O novelista, que teve cinco filhos, enfrentou a dolorosa perda de Ricardo de Almeida em 1988, Manoel Carlos Júnior em 2012 e Pedro Almeida em 2014, este último aos 22 anos. Ele deixa duas filhas: a atriz Julia Almeida e a roteirista Maria Carolina.
Nascido em São Paulo em 1933, Manoel Carlos sempre se declarou um carioca de coração. Sua trajetória na televisão começou como ator aos 17 anos, evoluindo para produtor, diretor e, notavelmente, um dos autores mais celebrados do Brasil. Na TV Globo, estreou em 1972 e consolidou seu estilo autoral com obras como “Por Amor”, “Laços de Família” e “Mulheres Apaixonadas”, marcadas pela presença de personagens femininas fortes, as inesquecíveis “Helenas”, que refletiam a sensibilidade e as experiências de seu criador.