Em um encontro revelador no Rio de Janeiro, a escritora Letícia Dornelles compartilhou os bastidores de sua colaboração com o icônico Manoel Carlos na novela “Por Amor”, obra considerada por muitos como o ápice da carreira do autor. Sua jornada para se tornar a parceira de “Maneco” em um dos maiores textos da teledramaturgia brasileira foi marcada por um concurso acirrado e um convite inesperado.
A entrevista, que se estendeu pela madrugada, foi um mergulho profundo nas memórias de Letícia, que por diversas vezes precisou de pausas para processar a emoção ao relembrar a convivência e o carinho recebido de Manoel Carlos. O jornalista, buscando facilitar a leitura, concentrou-se em perguntas pontuais, resultando em um relato tocante e informativo.
Letícia Dornelles relembrou como sua trajetória no jornalismo a levou a se inscrever na Oficina de Autores da TV Globo, sem experiência prévia em roteiros. Dentre 600 inscritos, 32 foram selecionados para testes, e apenas 12 avançaram para a oficina. Ela se destacou como a única contratada, recebendo elogios da direção artística da emissora, que identificou uma afinidade especial entre ela e Manoel Carlos. Seu roteiro foi apresentado ao autor, que buscava uma colaboradora para a novela.
O convite oficial veio em uma ligação de Manoel Carlos em uma noite de segunda-feira, conforme relatou Letícia. Após uma conversa extensa, ele a convidou para trabalharem juntos, citando uma “química” entre eles. Essa foi a estreia de Letícia como novelista, em horário nobre, ao lado de um dos maiores nomes da TV brasileira. A felicidade foi tamanha que a noite foi de poucas horas de sono, imersa na expectativa da colaboração com Maneco.
A experiência de estrear no horário nobre foi intensa. Letícia descreveu o ritmo alucinante de trabalho, com a produção de 45 páginas diárias, três vezes por semana. A divisão da novela envolvia a escrita de três capítulos por dia para cada um. Manoel Carlos escrevia durante o dia, e Letícia se dedicava à noite, garantindo que a emissora tivesse dois capítulos prontos pela manhã. A repercussão do trabalho no mercado e nas ruas era motivo de grande prazer. Para Letícia, Maneco foi uma “escola” e uma “pós-graduação de vida”. Ela se dedicou a imitar o estilo de escrita de Manoel Carlos para garantir a fluidez para os atores. O autor a presenteou com livros para que compreendesse o universo dos “emergentes da Barra”, um grupo social em ascensão, e também com obras de poesia, incentivando seu interesse por Fernando Pessoa.
Ao final de “Por Amor”, Manoel Carlos enviou um cartão de Natal com a mensagem “Descanse. Nos veremos na próxima”, indicando que já a reservava para “Laços de Família”. Letícia também mencionou ter trabalhado com outros autores posteriormente.
Sobre a personalidade de Manoel Carlos, Letícia o descreveu como “muito rigoroso” e “atento aos detalhes”, apreciando a disciplina e rapidez dela. As reuniões informais em seu apartamento no Leblon, acompanhadas de um drink, eram momentos de troca de ideias. Ela relatou um episódio curioso sobre seu medo de gatos, e a brincadeira de Manoel Carlos em relação a isso, sugerindo que enfrentar o medo era a melhor solução.
Um momento marcante foi a perda da avó de Letícia durante o início dos trabalhos. Manoel Carlos a aconselhou a seguir em frente, mesmo em meio ao luto. Letícia revelou ter descoberto posteriormente as perdas de dois filhos de Maneco, um assunto que ele nunca abordava, e que seu filho mais novo também faleceu anos depois. Ela ressaltou a complexidade da vida de um homem que enfrentou a perda de três filhos.
Letícia Dornelles também destacou a ligação de Manoel Carlos com a história da TV brasileira, lembrando sua participação na criação do “Fantástico” e na produção e direção de “Família Trapo” na TV Record, programa de humor com Jô Soares e Ronald Gollias. Ela própria escreveu um especial em homenagem a “Família Trapo” na Record, estabelecendo um segundo elo entre eles. A escritora reconheceu o ciúme que sua estreia no horário nobre e sua parceria com Maneco geraram, descrevendo a TV como uma “fábrica de sonhos, mas também de pesadelos”. “Por Amor” permanece em seu coração como um dos momentos mais felizes de sua vida, apesar das outras novelas e especiais que vieram depois.