A relação entre o mundo do futebol e a política é um território complexo, frequentemente debatido entre aqueles que defendem uma separação estrita e os que veem ambas as esferas intrinsecamente ligadas. À medida que a Copa do Mundo de 2026 se aproxima, com os Estados Unidos compartilhando a sede com Canadá e México, as crescentes tensões políticas internas nos EUA lançam uma sombra de incerteza sobre o evento.
As repercussões políticas no esporte não são uma novidade. Um precedente notório foi a exclusão da Rússia das Eliminatórias e, consequentemente, da Copa do Mundo do Catar, após a invasão da Ucrânia. Essa decisão conjunta da FIFA e da UEFA impediu a participação russa, uma sanção que permanece em vigor.
A situação atual, no entanto, ganha contornos mais complexos. A política externa e interna dos Estados Unidos, em particular, tem gerado preocupações. A captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, realizada sob ordens do então presidente Donald Trump em janeiro de 2025, com o envolvimento de 150 aeronaves, é um exemplo da projeção de poder americano. Embora não se compare a um conflito em larga escala como o da Rússia e Ucrânia, tais ações podem ter desdobramentos globais.
Adicionalmente, declarações recentes de Trump sobre a possível anexação da Groenlândia, um território autônomo dinamarquês, e o fortalecimento de políticas anti-imigração nos EUA adicionam camadas de complexidade. Desde o início de seu mandato em janeiro de 2025, Trump implementou decretos que restringem a entrada de cidadãos de diversos países, e as ações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) têm sido frequentemente criticadas por sua truculência. Mais recentemente, o congelamento da emissão de vistos de imigrantes para cidadãos de 75 países, incluindo o Brasil e outras nações que competirão na Copa, intensificou as preocupações.
Diante desse cenário, a possibilidade de um boicote por parte de seleções participantes tem sido ventilada. Na Holanda, o debate ganhou força, com o presidente da Federação Holandesa de Futebol expressando críticas às ações de Trump, mas descartando um boicote. Na Alemanha, o vice-presidente da federação também se manifestou a favor de uma possível ausência, vendo o Mundial como um potencial palco para propaganda política. Deputados dinamarqueses e conservadores britânicos também expressaram a relevância de discussões sobre boicote em cenários de escalada de tensões, como uma possível invasão americana à Groenlândia ou para evitar constrangimentos políticos para os EUA.
Relatos do jornal britânico The Guardian indicam que representantes de 20 seleções europeias já discutiram as ações do presidente americano. O ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter, chegou a aconselhar o público a evitar os Estados Unidos, ecoando questionamentos sobre a realização da Copa em solo americano.
A diferença crucial desta edição é que, ao contrário da Rússia, os Estados Unidos são um dos países anfitriões. Qualquer sanção ou boicote teria um impacto significativamente maior, dada a importância dos EUA no cenário futebolístico e logístico do evento. Onze cidades americanas, além de três no México e duas no Canadá, sediarão os jogos, com a seleção brasileira programada para disputar seus jogos da fase de grupos na costa leste dos Estados Unidos.