A dinâmica de entrada no Big Brother Brasil 26 para Chaiany, Gabriela, Leandro e Matheus foi marcada por um período de confinamento no Quarto Branco, uma experiência que, segundo especialistas, pode deixar marcas psicológicas profundas. Após dias de isolamento em um ambiente de privação sensorial, os quatro participantes finalmente ingressaram na casa mais vigiada do país no último domingo, 18. A questão que paira é: quais serão as consequências dessa vivência extrema para o desempenho e bem-estar dos confinados?
Para analisar os efeitos mentais desse tipo de confinamento, a psicóloga Leticia de Oliveira conversou com a reportagem, detalhando como o Quarto Branco pode afetar os participantes e influenciar diretamente o andamento do jogo.
O Quarto Branco como Gatilho Psicológico
De acordo com a psicóloga, o Quarto Branco atua como um intenso gatilho psicológico, elevando significativamente os níveis de ansiedade. “O Quarto Branco, no confinamento, funciona como um estressor psicológico agudo. Ele aumenta muito a ansiedade; torna-se uma ansiedade de alta intensidade por falta de estímulo. Não há estímulo sensorial nem visual, e são esses estímulos que organizam o pensamento”, explica Leticia.
A especialista ressalta que a privação de estímulos externos intensifica os processos internos. “A privação sensorial amplifica os pensamentos e as emoções. Então, como não há nada para me estimular, começo a me autoestimular com os meus pensamentos e as minhas emoções; eu crio os próprios estímulos”, detalha. A transição para o ambiente do BBB 26, com seus múltiplos estímulos, pode, portanto, gerar um choque emocional considerável. “Depois que a pessoa sai dali, qualquer estímulo ou agente que interaja com ela vira um grande choque emocional”, alerta.
Outro ponto crucial abordado é a desestabilização do senso de identidade. “Também acontece uma quebra abrupta do senso de identidade. Como não há ninguém para validar, responder ou reagir, a pessoa fica sem essa troca. E, sem a troca, perdemos a referência do eu”, pontua a psicóloga.
Riscos Psicológicos na Competição Pós-Quarto Branco
A entrada abrupta no BBB 26 após o período no Quarto Branco pode desencadear reações emocionais intensas. “Existem alguns riscos, sim. Um deles é a desregulação emocional aguda: as emoções vêm sem filtro, com aumento de impulsividade, irritabilidade e choro sem conseguir parar”, adverte Leticia.
A hipersensibilidade à avaliação externa também é um fator de risco. “Ocorre uma hipersensibilidade à avaliação social; ao ficar sem essa referência, na hora em que saio, fico muito mais sensível ao que pensam ou falam de mim”, comenta. A psicóloga também aponta para a possibilidade de fusão emocional com o grupo, como um mecanismo de defesa contra a angústia. “Para aliviar essa angústia e tentar tirar esse sintoma, existe o risco da fusão emocional com o grupo. Então, paro de dar meu limite e de falar minha opinião”, afirma. A confusão entre a dinâmica do jogo e a realidade pessoal também pode se acentuar: “É um jogo, mas a pessoa sai armada, preocupada e reativa, como se aquilo fosse a vida”.
Cuidados Essenciais Após o Confinamento
Mesmo dentro de um ambiente monitorado como o reality show, cuidados psicológicos são indispensáveis. “O cuidado envolve uma psicoeducação sobre o seu estado emocional. Quando nos conhecemos, percebemos as emoções e entendemos os pensamentos, torna-se mais fácil não nos desregularmos emocionalmente”, sugere a especialista.
Leticia enfatiza a necessidade de um período de readaptação. “É necessário ter um tempo mínimo de readaptação emocional. Como você sai sem essa capacidade de escolha, é preciso ter uma proteção temporária contra decisões irreversíveis”, compara, utilizando a metáfora de um desgaste mental extremo: “A pessoa não está em condições; é como se tivesse corrido 42 quilômetros”.
A validação emocional por parte de terceiros é outro pilar importante. “Ter alguém com quem falar sobre as próprias emoções e o que sentiu ali permite uma reorganização cognitiva”, explica. Por fim, a psicóloga defende um acompanhamento profissional contínuo. “A qualquer sinal de desregulação emocional, deve haver um acompanhamento. Acredito que seria interessante um acompanhamento anterior e também um acompanhamento pós-Quarto Branco”, conclui.