O aumento de diagnósticos de câncer entre a população jovem tem gerado preocupação e debates. Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam para aproximadamente 704 mil novos casos da doença no Brasil anualmente, com projeções para o triênio 2023-2025. Embora a maior incidência seja em indivíduos com mais de 50 anos, observa-se um preocupante crescimento da doença em faixas etárias mais novas.
Recentemente, dois casos midiáticos trouxeram o tema à tona. Bruna Furlan de Nóbrega, neta do apresentador Carlos Alberto de Nóbrega, foi diagnosticada com câncer de mama em estágio metastático aos 24 anos. Paralelamente, a influenciadora Isabel Veloso faleceu aos 19 anos, após lutar contra um Linfoma de Hodgkin iniciado aos 15, e complicações decorrentes de um transplante de medula óssea.
Em entrevista ao iG Gente, o oncologista Ramon Andrade de Mello, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, esclareceu a relação entre estilo de vida, fatores ambientais e o diagnóstico da doença em jovens. “O estilo de vida saudável está relacionado com a diminuição da incidência de várias doenças, dentre elas, o câncer. Controle de fatores, como obesidade e tabagismo, podem, sim, estar associados à redução do risco”, explicou.
O especialista, que integra o corpo clínico de hospitais renomados como o Albert Einstein e o Oswaldo Cruz, destacou que os sintomas do câncer variam amplamente conforme o tipo e a particularidade de cada diagnóstico. No entanto, alguns sinais de alerta exigem atenção médica imediata, como perda de peso inexplicada e acentuada, icterícia (amarelidão nos olhos) e dores corporais intensas. “O câncer, de maneira geral, é uma doença silenciosa. Muitas vezes não existem sinais determinantes, o diagnóstico vem pelo rastreio”, ressaltou.
De acordo com Mello, a dificuldade em obter diagnósticos precoces em jovens está ligada, em grande parte, à baixa adesão a consultas regulares e exames de rotina. Consequentemente, quando os sintomas se manifestam, a doença frequentemente já se encontra em estágios mais avançados. “O diagnóstico precoce é mais difícil em pacientes jovens, porque são pessoas que não fazem o check-up corretamente. Também não existem programas de rastreio específicos para esses pacientes, o que acaba se tornando mais difícil”, ponderou o pesquisador honorário da Universidade de Oxford.
O oncologista também ressaltou o papel positivo da visibilidade dada por figuras públicas ao enfrentarem a doença, desde que acompanhada de informações verídicas e cientificamente embasadas. Segundo Mello, embora seja uma decisão individual, a exposição pública contribui para ampliar o debate e a conscientização sobre o câncer. “Casos de pessoas na mídia viram notícia e trazem à tona a discussão, conscientizando sobre o rastreio e a prevenção. Esses pacientes que expõem a jornada deles é uma decisão individual. Quando essa informação é compartilhada de forma adequada, ela serve para identificarmos o problema, trazer a discussão e conscientizar outras pessoas”, concluiu.