A estreia de Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio, na noite de terça-feira, foi marcada por uma expectativa palpável, onde um deslize era aguardado por parte do público antes mesmo do primeiro passo. A influenciadora digital assumiu a posição de destaque com um sorriso no rosto e aparente confiança, optando por não se pronunciar sobre as controvérsias que a cercam desde o anúncio de sua nomeação.
Na manhã seguinte, a internet explodiu em críticas, algumas parecendo embasadas em observações válidas, mas outras claramente motivadas por sentimentos que vão além da apreciação do samba.
O cerne da polêmica reside em um episódio específico: a remoção de parte de sua fantasia durante o desfile. Rapidamente, essa ação foi interpretada por muitos como prova de “erro”, “falta de preparo” ou “desorganização”.
Entretanto, um detalhe crucial foi minimizado: a retirada do adereço foi previamente acordada com a escola. Em entrevistas concedidas antes de adentrar a avenida, a própria Virgínia havia declarado que utilizaria a peça até a passagem pelos jurados, para então removê-la. Não houve improviso, desrespeito ou quebra de protocolo.
Apesar disso, a bateria da escola sofreu perda de pontos, e a narrativa de que a culpa seria da rainha foi prontamente disseminada.
É fundamental esclarecer um ponto básico: a figura da rainha de bateria não é um quesito avaliado. A performance da bateria é julgada por critérios técnicos como precisão rítmica, afinação, cadência e coesão do conjunto. Embora a rainha possa contribuir para a energia e a presença de palco, não existe penalidade individual aplicada a ela. Portanto, a perda de pontos da bateria não está diretamente ligada à escolha de sua rainha.
Atribuir a responsabilidade por essa perda a Virgínia seria, no mínimo, uma simplificação excessiva do universo do Carnaval e, no máximo, uma busca conveniente por um bode expiatório.
A discussão sobre a divulgação de jogos de azar, tema já exaustivamente debatido, também ressurgiu. É fato que Virgínia já realizou tal divulgação, assim como inúmeros outros artistas, atletas e influenciadores. Atualmente, ela não o faz mais. Diante disso, o que se espera? Uma retratação perpétua? Seu desaparecimento? A proibição de ocupar qualquer espaço de destaque?
A percepção é de que, independentemente de suas ações, a condenação parece inevitável.
Virgínia é uma profissional ativa, que gera empregos, impulsiona o mercado, concilia a maternidade com sua vida pessoal e relacionamentos. Ela não se dedica a atacar colegas, não responde com hostilidade, não alimenta rivalidades femininas e evita indiretas. Ainda assim, parece haver um desejo coletivo de testemunhar seus equívocos.
A questão, portanto, transcende o samba. Trata-se de um incômodo.
A presença de uma mulher jovem, próspera, influente e bem-sucedida em um palco tradicional como o Carnaval, sem pedir licença, gera desconforto em muitos. O posto de rainha de bateria carrega um peso simbólico e histórico, e a entrada de uma figura já proeminente em outro meio nesse território intensifica o escrutínio.
Mas quais seriam os critérios reais para o julgamento? Técnica, tradição ou uma antipatia seletiva?
Críticas e questionamentos são parte inerente de qualquer manifestação pública. O que chama a atenção é a magnitude da torcida contra, a energia de arquibancada à espera de uma queda.
Talvez a pergunta mais pertinente não seja “ela merece?”, mas sim “por que tantas pessoas sentem a necessidade de que ela não mereça?”.
Virgínia, como qualquer ser humano, não é perfeita. Contudo, a expectativa de uma perfeição absoluta, aplicada seletivamente a certas figuras públicas, revela mais sobre aqueles que cobram do que sobre a pessoa que está sob os holofotes.
Ao final das contas, o Carnaval seguiu seu curso, a apuração foi realizada, o combinado foi cumprido e ela não tropeçou. A internet, por sua vez, continuou em sua tentativa de desestabilizá-la.
E essa persistência, francamente, diz muito mais sobre quem observa do que sobre quem desfila.