O longa-metragem brasileiro ‘Feito Pipa’, uma obra dirigida por Allan Deberton e com a participação do renomado ator Lázaro Ramos, alcançou um feito notável no Festival Internacional de Cinema de Berlim. O filme foi agraciado com duas das mais importantes distinções da mostra Generation Kplus, uma seção dedicada a produções cinematográficas internacionais voltadas para o público jovem.
A produção nacional foi laureada com o prestigioso Urso de Cristal (Gläserner Bär) de Melhor Filme, um reconhecimento concedido pelo Júri Infantil da Generation Kplus. Os jovens jurados justificaram sua escolha destacando a profunda conexão emocional proporcionada pelo filme, a força da narrativa e a relevância das temáticas abordadas, que merecem maior atenção.
Adicionalmente, ‘Feito Pipa’ assegurou o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme da mesma mostra. O júri internacional, composto por figuras como o diretor indonésio Khozy Rizal, a atriz alemã Lena Urzendowsky e a diretora de programação do Festival de Sundance, Kim Yutani, elogiou a cativante narrativa, a complexidade e resiliência do protagonista juvenil, e a forma sensível e bem-humorada com que o filme explora seus dilemas existenciais. As atuações de Yuri Gomes e Teca Pereira foram particularmente destacadas, assim como a memorável figura de Gugu.
Ambientado em paisagens marcantes do sertão nordestino, ‘Feito Pipa’ mergulha na vida comunitária do semiárido brasileiro. O filme tem como protagonista o jovem Yuri Gomes, que, assim como Lázaro Ramos, teve suas primeiras experiências artísticas em Salvador. A obra explora a jornada de um garoto queer, abordando sua busca por liberdade e aceitação.
Em suas declarações, Lázaro Ramos descreveu ‘Feito Pipa’ como a história de Gugu, um menino que clama pelo direito de ser quem é, sem a necessidade de se moldar às expectativas alheias. O personagem, que vive com a avó após a perda da mãe e a distância do pai, encontra no amor e na segurança familiar o refúgio para sua identidade.
O filme, que foi recebido com aplausos de pé pelo público em Berlim, é um reflexo da crescente diversidade e da identidade estética do cinema brasileiro contemporâneo. A trama se desenrola com Gugu, prestes a completar 12 anos, sonhando em ser jogador de futebol. Sob os cuidados de sua avó Dilma, ele cresce em um cenário de um reservatório que revela vestígios de uma cidade submersa, um ambiente que molda sua relação com o mundo e com os que o cercam.
Ramos celebrou o momento atual do cinema nacional, enfatizando a diversidade de temas e a afirmação de uma estética própria. Ele contrastou essa fase com períodos anteriores em que o cinema brasileiro buscava se adequar a padrões globais, ressaltando o renascimento e a voz autêntica das produções atuais. O diretor Allan Deberton complementou, destacando o vigor do cinema brasileiro e a importância de políticas de fomento, como editais descentralizadores, que possibilitam a realização de filmes como ‘Feito Pipa’, originário do Ceará.
É importante notar que outros dois filmes com participação brasileira, ‘Rosebush Pruning’ de Karim Aïnouz e ‘Josephine’ de Beth de Araújo, competiram na mostra principal da Berlinale pelo Urso de Ouro. Ao todo, dez produções com envolvimento do cinema nacional foram apresentadas durante o festival.