A trajetória de Gabriela Loran, que brilha na novela ‘Três Graças’, é marcada por uma infância humilde em São Gonçalo, superação de preconceitos e uma determinação inabalável em alcançar seus objetivos. Aos 32 anos, a atriz já manifestava, em 2022, o desejo de ser protagonista de uma novela das nove, uma meta que, embora ainda não totalmente concretizada, a impulsionou a conquistar um papel de destaque e aclamação na atual trama das sete da Rede Globo.
Gabriela descreve sua infância como um período de grande criatividade e esperança, onde a imaginação foi um refúgio crucial. Ela relata praticar a ‘lei da atração’, moldando suas aspirações com convicção. “Quando eu boto na minha cabeça uma coisa, eu já moldo exatamente como vai acontecer”, afirmou.
Criada em um lar com um pai motorista de ônibus e uma mãe ex-funcionária de supermercado, a atriz vivenciou desafios comuns a muitas pessoas LGBTQIA+ e, em especial, pessoas trans. O bullying na escola e a resistência familiar foram obstáculos enfrentados desde cedo. O banheiro, paradoxalmente, tornou-se um santuário para suas emoções e para sua expressão artística, onde chorava e encontrava momentos de refúgio.
As visitas à casa da tia ofereciam um espaço de aceitação, onde podia brincar livremente. Sobre a relação com os pais, Gabriela pontua a complexidade. O pai, apesar de um pai maravilhoso, enfrentava batalhas contra o alcoolismo, o que gerava transformações em seu comportamento. “Ele sempre foi um pai maravilhoso, mas quando bebia, era quase como uma questão espiritual, e por isso eu nunca tive ódio dele, porque eu sabia que não era ele ali”, explicou.
Atualmente, a relação com o pai é de profunda parceria e acolhimento. Ele foi o primeiro a reconhecê-la como filha após sua transição, demonstrando respeito e um cuidado diário que emociona a atriz. A mãe, por sua vez, precisou de mais tempo para compreender a transição da filha, movida por medo e proteção. Gabriela narra o processo de ensinar e guiar os pais, com paciência e carinho, corrigindo pronomes e explicando sua identidade.
A jornada para se tornar mulher foi iniciada aos 23 anos, em 2016, quando Gabriela já morava sozinha. O sonho de atuar a levou a deixar a casa dos pais aos 19 anos, cursando Artes Cênicas na CAL com auxílio do Fies. Para se sustentar, trabalhou como garçonete, enfrentando situações de humilhação, como a vez em que foi expulsa do banheiro feminino no mesmo shopping onde trabalhava. “Já fui humilhada muitas vezes, mas eu pego essa humilhação e a transformo em mais forças para vencer”, declarou.
A cirurgia de redesignação sexual, um marco em sua vida, foi realizada na Tailândia, após oito anos de economia para juntar os R$ 117 mil necessários. A inspiração para essa busca veio ainda na infância, ao ver Roberta Close na televisão. “Foi a primeira vez que vi que eu poderia crescer e virar mulher. (…) Eu já tinha certeza de que faria [a cirurgia], mas não tinha dinheiro. Precisei juntar o valor, preparar meu corpo e minha mente”, compartilhou.
A carreira artística ganhou impulso em 2018, após um período de dificuldades financeiras em que chegou a vender roupas usadas e fazer tranças na praia para sobreviver. Um teste para ‘Malhação’ marcou o início de uma ascensão que a levou a papéis em ‘Cara e Coragem’ e ‘Renascer’, além de participações em publicidade.
Gabriela Loran também se destaca por sua generosidade, tendo construído uma casa para a família e adquirido um carro adaptado para o pai. Ao refletir sobre seu percurso, ela expressa gratidão ao seu eu do passado. “Não tenho problema nenhum com o meu passado. Sou muito grata ao Gabriel, por tudo o que ele viveu. Porque ele cedeu espaço para que a Gabriela florescesse”.
Atualmente, com sua atuação em ‘Três Graças’ recebendo elogios, a atriz mira ainda mais alto, declarando que sua nova meta é conquistar um Oscar.