A atriz Gabriela Loran, que tem roubado a cena com sua interpretação de Viviane na novela “Três Graças”, já manifestava ambições de protagonismo em 2022, declarando o desejo de ser “protagonista de uma novela das 9”. Aos 32 anos, essa convicção se alinha a uma trajetória de vida forjada em um ambiente humilde de São Gonçalo, onde a resiliência e a imaginação foram ferramentas essenciais para superar adversidades.
Loran descreve sua infância como um período de intensa criatividade e esperança, onde a imaginação servia como um escudo. “Sempre fui uma criança muito artística e esperançosa. Tinha uma imaginação muito fértil. E foi essa imaginação que me salvou de muita coisa”, revelou em uma ocasião, enfatizando sua crença na “lei da atração” para a concretização de seus objetivos.
Filha de um motorista de ônibus e de uma ex-funcionária de supermercado, a atriz compartilhou em seu relato ao podcast QueenCast as dificuldades enfrentadas por ser uma criança LGBTQIA+ em um lar com resistência e na escola, onde era alvo de bullying. O banheiro, paradoxalmente, tornou-se um refúgio para o choro e a busca por respostas divinas, mas também um palco improvisado para a expressão artística, onde, com uma toalha na cabeça, cantava para o espelho.
As visitas à casa da tia representavam momentos de aceitação, onde podia brincar livremente com as primas. A relação com o pai, embora marcada por seu histórico de alcoolismo, é descrita com afeto e compreensão. “Ele sempre foi um pai maravilhoso, mas quando bebia, era quase como uma questão espiritual, e por isso eu nunca tive ódio dele, porque eu sabia que não era ele ali”, explicou, destacando a parceria e o acolhimento que desfrutam atualmente. “Ele foi o primeiro a me chamar de filha, a me respeitar depois da minha transição”, comentou orgulhosa em uma entrevista no YouTube.
A mãe, Maria das Dores, inicialmente demonstrou receio em relação à transição da filha, motivada por medo e proteção. A compreensão familiar foi um processo gradual, iniciado na formatura da atriz. “Eu fui ensinando a eles na medida do possível”, disse Loran, que também inspirou a mãe a concluir a faculdade de Direito aos mais de 50 anos. “Tive muita paciência, mas eles me ajudaram a me construir como mulher. Quando erravam meu pronome, me chamando de ‘ele’, eu ia corrigindo. Assim, fui modificando os dois: com carinho e atenção”, relatou ao canal.
A independência veio aos 19 anos, quando Gabriela deixou a casa dos pais para cursar Artes Cênicas na CAL, com auxílio do Fies. Para se manter, trabalhou como garçonete em um shopping onde, anos antes, havia sido expulsa do banheiro feminino. “Já fui humilhada muitas vezes, mas eu pego essa humilhação e a transformo em mais forças para vencer”, desabafou, revelando também formações em Segurança do Trabalho e o início da graduação em Psicologia.
A cirurgia de redesignação sexual, um sonho acalentado desde a infância ao ver Roberta Close na televisão, foi realizada na Tailândia em janeiro do ano passado, após uma jornada de economia que totalizou R$ 117 mil. “Eu já tinha certeza de que faria [a cirurgia], mas não tinha dinheiro. Precisei juntar o valor, preparar meu corpo e minha mente”, contou ao podcast.
A carreira artística decolou em 2018, após um período de dificuldades em que viveu em um hostel em Santa Teresa, chegando a vender roupas usadas e fazer tranças na praia para se sustentar. O teste para “Malhação” marcou o início de uma ascensão que incluiu participações em “Cara e Coragem” (2022) e “Renascer” (2023). Paralelamente, a atriz expandiu sua atuação para a publicidade online, utilizando os recursos para construir uma casa para a família e adquirir um carro adaptado para o pai.
Ao refletir sobre sua trajetória, Gabriela Loran expressa profunda gratidão. “Não tenho problema nenhum com o meu passado. Sou muito grata ao Gabriel, por tudo o que ele viveu. Porque ele cedeu espaço para que a Gabriela florescesse”, declarou. Com o sucesso em “Três Graças” e os elogios recebidos, a atriz já mira novos horizontes: “Quero ganhar um Oscar”.