A complexa jornada de um homem pacato a um ato extremo é o cerne de O Motociclista no Globo da Morte, peça teatral que conta com a performance de Eduardo Moscovis em cartaz no Teatro Vivo. A obra, escrita por Leonardo Netto, mergulha na temática da violência de forma rigorosa e sem atalhos, aprofundando a investigação já iniciada em trabalhos anteriores do autor, como o aclamado solo Três Maneiras de Tocar no Assunto, que dissecava a homofobia estrutural.
Em O Motociclista, a brutalidade contemporânea é retratada em sua infiltração sutil no cotidiano, muitas vezes manifestando-se sem alardes. A direção de Rodrigo Portella opta por uma encenação econômica, onde Moscovis, em uma atuação minimalista e sentado durante toda a peça, expõe os acontecimentos com clareza cirúrgica, dispensando efeitos grandiloquentes.
O foco recai sobre a expressividade do ator, que sustenta a dramaturgia com uma precisão notável. Este trabalho intimista evoca a força de Moscovis, lembrando sua performance marcante na montagem de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, em 2015.
A contenção formal se reflete nos elementos visuais, com uma iluminação estática de Ana Luzia de Simoni, que intensifica a atmosfera de tensão latente. A cenografia complementa a narrativa, em uma construção depurada onde cada elemento tem seu propósito.
A peça desdobra a transformação de um matemático avesso a conflitos em um indivíduo mergulhado em uma espiral de violência, desencadeada pela morte cruel de um cachorro. O evento funciona como estopim para uma sucessão de violências sociais que se desenrolam em um espaço e tempo reduzidos.
Evitando explicações fáceis, a narrativa sugere, de forma indireta, uma tese perturbadora: a violência moderna seria, talvez, não uma exceção, mas uma extensão do próprio convívio social. O espetáculo, ao tratar o tema com sobriedade, mantém o debate aberto.
Sem apelar para a grandiloquência, O Motociclista no Globo da Morte se consolida como um dos destaques da temporada. A solidez da dramaturgia é potencializada por uma direção discreta, porém eficaz. Moscovis conduz o monólogo com uma rara precisão e uma inteligência cênica que, através de movimentos sutis, cativa a atenção contínua da plateia.
A peça corre o risco de parecer austera em seu minimalismo, mas reforça a mensagem central da dramaturgia: a necessidade de estarmos atentos à natureza prosaica, comum e onipresente da violência em nosso entorno.
COTAÇÃO: ★ ★ ★ ★ ★ (EXCELENTE)
SERVIÇO:
O Motociclista no Globo da Morte
Temporada: 23 de janeiro a 29 de março de 2026
Local: Teatro Vivo SP, São Paulo (SP)
Endereço: Av. Chucri Zaidan, 2460, Vila Cordeiro, região sul
Horários: Sexta e sábado, às 20h; domingo, às 18h
Duração: 60 minutos
Ingressos: R$ 75 (meia) a R$ 150 (inteira)