A dinâmica do ‘Quarto Branco’ no Big Brother Brasil 26 gerou um pronunciamento contundente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). Em carta aberta dirigida à produção do programa, o órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania expressou profunda preocupação, comparando as condições impostas aos participantes a métodos de tortura sistematicamente utilizados durante o regime militar no Brasil.
A CEMDP destacou semelhanças alarmantes entre as provas e o confinamento do Quarto Branco e práticas históricas de violação de direitos humanos. Segundo a comissão, a privação de sono, o isolamento prolongado, a desorientação espacial e a imposição de posturas físicas extenuantes configuram elementos de tortura, agora apresentados como espetáculo para milhões de espectadores. A crítica se intensifica ao observar que o formato, já presente em edições anteriores, parece ter sido elevado a um novo patamar de severidade nesta temporada.
A carta ressalta que a televisão pública, por meio de concessões estatais, possui um papel fundamental na promoção de valores éticos e sociais, conforme preceitua a Constituição Federal. A comissão argumenta que a exploração do sofrimento humano em nome da audiência e do entretenimento contraria esses princípios, especialmente quando evoca memórias de um período sombrio da história brasileira.
Um dos pontos centrais da manifestação é a crítica à ideia de que o consentimento dos participantes anula a gravidade da situação. A CEMDP sustenta que a proibição constitucional contra a tortura e o tratamento degradante é absoluta e não pode ser relativizada, independentemente da busca por fama ou prêmios. A comissão alerta para o risco de dessensibilização do público diante da dor alheia e para o enfraquecimento da compreensão social sobre a gravidade da violência de Estado.
No episódio que motivou o manifesto, a participante Rafaella Jaqueira desmaiou após mais de 120 horas confinada no Quarto Branco, um recorde de duração para a dinâmica no reality. A prova, que visava a entrada fixa de participantes no elenco principal, submeteu os confinados a condições extremas de exaustão física e psicológica. A CEMDP enfatiza que tais cenas não devem ser vistas apenas como demonstrações de resistência, mas sim como um alerta sobre a normalização de práticas que remetem a violações de direitos humanos.
Entre os signatários da carta aberta estão figuras com forte ligação à defesa dos direitos humanos e à memória da ditadura, como Vera Facciolla Paiva, filha do ex-deputado Rubens Paiva, além de representantes de familiares de mortos e desaparecidos políticos, sociedade civil e parlamentares. A CEMDP, recriada em 2024 após ter suas atividades interrompidas, busca, com esta intervenção, manter vivo o debate sobre a tortura e suas consequências sociais.
A emissora Globo foi procurada para comentar o caso desde o último sábado (31), mas até o fechamento desta matéria, não havia emitido posicionamento oficial sobre as críticas da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.