Um comercial protagonizado pela atriz Fernanda Torres para a marca Havaianas gerou um intenso debate nas redes sociais no último fim de semana. A peça publicitária, que contou com a participação da artista, motivou apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro a convocarem um boicote à empresa. O episódio reacendeu a discussão sobre o papel dos algoritmos na formação de percepções públicas, tanto de personalidades quanto de corporações.
A controvérsia eclodiu quando parte do eleitorado de Bolsonaro interpretou uma fala da atriz no comercial como um posicionamento político. Na gravação, Fernanda Torres expressou o desejo de que os brasileiros não iniciem o ano de 2026 com o “pé direito”. Essa manifestação foi vista por críticos como uma alusão a um possível futuro governo, gerando forte reação.
O incidente expõe um fenômeno cada vez mais presente: a rápida interpretação e disseminação de qualquer conteúdo comunicacional em bolhas digitais que tendem a reforçar visões preexistentes. Esse cenário permite que marcas e figuras públicas sejam tanto aclamadas quanto rejeitadas com a mesma velocidade e intensidade.
Segundo Alê Vazz, estrategista de legado que assessora executivos e grandes empresas, o caso evidencia um erro comum. Ele destaca que, em um ambiente digital dominado por algoritmos que favorecem extremos e minimizam nuances, um simples posicionamento não é suficiente. “A lógica das redes sociais não é buscar a verdade, mas sim manter o usuário engajado. Quando uma marca se posiciona sem compreender essa dinâmica, ela não está apenas falando com o consumidor, mas também com o algoritmo”, explicou Vazz.
O especialista aponta que a percepção de uma marca atualmente não se constrói em um único espaço de debate público, mas sim em realidades fragmentadas, moldadas por filtros de conteúdo. “Não existe mais uma opinião pública homogênea. Existem audiências distintas consumindo versões opostas da mesma história. Uma marca que confunde aplausos localizados com aprovação geral comete um erro custoso para seu próprio legado”, alertou.
Vazz argumenta que, ao focar em um público específico que demonstra aprovação, uma empresa corre o risco de alienar outros segmentos de sua base de consumidores. “Posicionamento sem contexto se torna ruído. E ruído, em um ambiente polarizado, vira crise. Antes de qualquer campanha, líderes devem questionar o que essa mensagem comunica para quem concorda e, fundamentalmente, para quem discorda”, aconselhou.
Ele sugere que o episódio seja analisado não como uma polêmica isolada, mas como um estudo de risco para empresas que operam em contextos polarizados sem uma governança clara de marca e legado. “Uma campanha pode ser corrigida com planejamento. Já a percepção de que a marca escolheu um lado em um país dividido corrói algo mais fundamental: a confiança. E a confiança é construída com coerência, consistência e responsabilidade, não apenas com criatividade”, enfatizou.
Do ponto de vista estratégico, o caso oferece aprendizados cruciais para o mercado. A opinião expressa em redes sociais não substitui a pesquisa de percepção. É essencial mapear as diversas audiências e entender que o engajamento momentâneo não deve comprometer a reputação futura. Marcas que almejam longevidade precisam desenvolver a capacidade de dialogar com a diversidade, sem confundir responsabilidade com a mera ausência de posição.
Para Vazz, a mudança de mentalidade é fundamental. É preciso transcender a lógica da campanha viral e adotar a perspectiva de uma narrativa que sustente um legado. “Uma marca que deseja perdurar por mais 30 anos não pode deixar sua reputação à mercê da volatilidade do feed”, concluiu.