A peça teatral ‘Habitat’, do premiado dramaturgo Rafael Primot, em cartaz no Teatro Estúdio, em São Paulo, lança um olhar crítico sobre as dinâmicas sociais que emergem em torno de eventos de grande repercussão. Embora não se trate de uma encenação literal de acontecimentos específicos, a obra inspira-se no episódio da morte de um cachorro em uma unidade do supermercado Carrefour, em Osasco, no final de 2018, para explorar as complexas reações da sociedade contemporânea.
O texto de Primot transcende a mera reconstituição factual, utilizando o incidente como estopim para desdobrar reflexões sobre a velocidade dos julgamentos online, a cultura do cancelamento e as contradições de uma sensibilidade que, ao mesmo tempo em que demonstra crescente cuidado com os animais, ainda luta para lidar com violências humanas de maior complexidade. A dramaturgia evita sentimentalismos fáceis, apresentando um debate tensionado sobre essas dicotomias sem oferecer respostas simplistas.
A força da montagem reside em seu elenco coeso e na atuação precisa de seus intérpretes. Fernanda de Freitas, em uma rara aparição nos palcos paulistanos, brilha ao compor uma jornalista e ativista com uma intensidade auto indulgente em sua defesa dos direitos animais. Rogério Britto, com sua experiência, entrega um empresário de ética maleável com notável contenção. Contudo, é Rafael Primot, no papel de um segurança de loja, quem concentra o cerne da ação, demonstrando, em uma atuação densa e livre de caricaturas, o ápice de sua capacidade interpretativa.
Primot, conhecido por trabalhos como A Herança e Um Pequeno Acidente, consolida em Habitat seu texto mais maduro desde Baby – Você Precisa Saber de Mim, demonstrando maestria ao abordar um tema tão delicado sem recorrer a atalhos dramatúrgicos.
A direção, a cargo de Lavínia Pannunzio e Eric Lenate, propõe um ritmo acelerado e um ambiente de constante tensão. Embora em alguns momentos essa intensidade possa gerar uma leve fadiga sensorial, a encenação encontra solidez na própria estrutura dramática. A integração entre luz, trilha sonora e cenário é notável: o desenho de luz de Sarah Salgado e a trilha de LP Daniel conduzem a narrativa, enquanto o cenário evoca uma atmosfera onírica que potencializa o alcance simbólico da discussão.
Em suma, ‘Habitat’ se configura mais como um convite à reflexão sobre nossas reações a crises coletivas do que como uma denúncia direta. A peça reafirma Rafael Primot como um dramaturgo e ator em plena maturidade artística, e destaca um elenco em perfeita sintonia. A montagem atinge relevância ao propor um debate despojado de simplificações sobre como selecionamos e moldamos nossas indignações públicas.
Cotação: ★ ★ ★ ★ (ÓTIMO)
Serviço:
Peça: Habitat
Temporada: 13 de janeiro a 5 de março
Local: Teatro Estúdio, São Paulo (SP)
Endereço: R. Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central
Horário: Terça a quinta, às 20h
Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia).