O cenário televisivo brasileiro perdeu um de seus pilares mais importantes. Manoel Carlos, o renomado autor cujas histórias cativaram gerações, faleceu aos 92 anos. Sua partida deixa um legado inestimável na teledramaturgia nacional, marcado por personagens inesquecíveis e narrativas que espelharam a alma do país.
A trajetória de Manoel Carlos na televisão começou a se consolidar nos anos 60, na TV Record. Convidado por Seu Tuta para integrar a chamada “Equipe A”, um seleto grupo composto por Tuta, Nilton Travesso, Raul Duarte e o próprio Manoel Carlos, ele participou da criação e produção semanal de sete programas. Entre eles, destacavam-se “A Família Trapo”, exibido aos sábados, e “Hebe”, apresentado aos domingos, que alcançaram grande sucesso e chegaram a rivalizar com a emergente TV Globo da época.
Antes de seu período na Record, Manoel Carlos já havia construído uma carreira de êxito na TV Excelsior. No entanto, dificuldades administrativas na emissora paulista levaram a atrasos no pagamento de salários. Após seis meses sem receber, Manoel Carlos e Nilton Travesso foram convidados por Boni para integrar o time da TV Globo. Na emissora carioca, enquanto Travesso se dedicou à direção de programas, Manoel Carlos encontrou seu caminho definitivo como um dos maiores autores de novelas do Brasil, ao lado de nomes como Dias Gomes e Gilberto Braga.
Foi na TV Globo que Manoel Carlos presenteou o público com obras-primas como “Por Amor”, novela que marcou época e emocionou o país com atuações de Regina Duarte, Antonio Fagundes e um elenco estelar. Sua criação mais icônica, a personagem Helena, que povoava suas novelas, era, segundo relatos, inspirada em uma paixão do autor, marcada por um amor não correspondido e traições que o levavam a momentos de profunda melancolia, como o episódio em que, aos sábados, após a saída de Helena de casa, ele se refugiava para chorar a noite toda com um amigo.
A genialidade de Manoel Carlos foi reconhecida e estudada academicamente. Nos anos 2000, o professor Ruvin Singal, da Universidade Mackenzie, dedicou-lhe uma tese de dramaturgia. Ao se deparar com a obra em uma livraria no Leblon, Manoel Carlos se emocionou profundamente, compartilhando o momento com o autor da tese.
A lembrança de Manoel Carlos transcende os roteiros e os personagens. É a memória de um homem que, com sua sensibilidade ímpar, soube traduzir em novelas os anseios, as alegrias e as dores do povo brasileiro, deixando uma marca indelével na cultura do país. Sua partida é um adeus a um artista que viveu intensamente a arte de contar histórias e encantar plateias.