O município de Paulista, em Pernambuco, foi o epicentro da ascensão financeira da família Lundgren, um nome de peso na história econômica do Brasil e da América Latina, especialmente entre o início do século XX e a década de 1990. O documentário “O testamento: o segredo de Anita Harley”, lançado recentemente pelo Globoplay, traz à tona a trajetória dessa dinastia, que era vista pela população local como a verdadeira realeza da região.
Foi nesse cenário de opulência e empreendedorismo que Anita Harley, a maior acionista das Casas Pernambucanas e que se encontra em coma há uma década após um Acidente Vascular Cerebral (AVC), construiu sua vida. Ela foi uma das ilustres moradoras e herdeiras do Casarão Lundgren, um imponente palacete que hoje se tornou um ícone da cidade e que, gradualmente, começa a abrir suas portas para o público.
A história da fortuna Lundgren remonta a Herman Theodor Lundgren, imigrante sueco e bisavô de Anita. Chegando ao Brasil sem recursos e sem dominar o idioma, seu aguçado tino comercial o levou a prosperar em negócios como uma fábrica de pólvora e a corretagem de navios. Em 1918, já consolidado e à frente de uma fábrica de tecidos que viria a gerar uma fortuna bilionária, o patriarca, conhecido como “coronel”, concluiu a primeira etapa da construção do grandioso casarão. Posteriormente, o imóvel passou por reformas e teve um novo edifício anexado, expandindo-se por uma área de 1164 m².
O palacete, erguido na década de 1930, ostenta quatro pavimentos e uma arquitetura que mescla concreto armado com tijolos cerâmicos aparentes na fachada, além de telhas francesas na cobertura, evidenciando influências europeias.
Nas décadas de 1950 e 1960, os extensos jardins do casarão serviam de palco para um zoológico particular e um parque de diversões. Estes espaços eram frequentados pelos membros da família Lundgren e também pelos netos dos funcionários da fábrica têxtil, proporcionando momentos de lazer e confraternização. Anita e seus irmãos passaram a infância explorando tanto a exuberante vegetação quanto um coreto construído pelo bisavô.
O interior do palacete guardava surpresas, como uma sauna instalada em um dos banheiros do segundo andar. No telhado, uma antena de rádio, visível de qualquer ponto da cidade, permitia a comunicação com a fábrica de Rio Tinto, localizada a 60 km de Paulista, e era fonte de diversão para as crianças da casa. A antena, segundo relatos, permanece funcional até os dias atuais.
Ainda é possível admirar na entrada do palacete uma escultura que evoca a obra da renomada artista francesa Camille Claudel, além de um vaso que se presume ter pertencido à coleção de Madame Pompadour, notória amante do Rei Luís XV.
No ano passado, os Jardins do Coronel, como é conhecida a vasta área verde, passaram a receber visitas escolares e a sediar eventos musicais e artísticos, abrindo um pouco mais da história do local para a comunidade.
Ainda não é possível agendar visitas particulares, um anseio antigo da população que viu a cidade de Paulista se desenvolver ao redor desta edificação histórica, que já hospedou personalidades de renome mundial, incluindo o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, com quem Anita posou para uma fotografia em sua juventude.