A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão ligado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, emitiu um forte pronunciamento contra a dinâmica do Quarto Branco no Big Brother Brasil 26. Em carta aberta direcionada à produção do programa, a comissão aponta semelhanças alarmantes entre os métodos utilizados na prova e as táticas de tortura empregadas durante o regime militar brasileiro, classificando a dinâmica como um retrocesso ético e um desrespeito à memória das vítimas de violações de direitos humanos.
A CEMDP detalha que elementos como a privação de sono, o isolamento prolongado, a desorientação espacial e a exigência de posturas físicas extenuantes, características do Quarto Branco, são reconhecidos como métodos de tortura historicamente documentados. A comissão argumenta que a transformação de tais práticas em entretenimento televisivo para milhões de espectadores banaliza o sofrimento humano e dessensibiliza o público diante da violência de Estado.
Um dos pontos centrais da crítica reside na intensidade com que a dinâmica foi explorada nesta edição. A carta ressalta que, embora o Quarto Branco já tenha aparecido em temporadas anteriores, a atual intensificou os limites físicos e psicológicos dos participantes, levando, inclusive, a um desmaio de Rafaella Jaqueira após mais de 120 horas confinada. A participante foi atendida e eliminada da disputa, que culminou na entrada fixa de outros quatro competidores no elenco principal.
A CEMDP fundamenta sua posição em princípios constitucionais, citando o artigo 5º da Constituição Federal, que proíbe a tortura e o tratamento degradante de forma absoluta, independentemente do consentimento dos envolvidos ou da promessa de recompensas. Adicionalmente, a comissão invoca o artigo 221, que estabelece que as concessões públicas de rádio e TV devem promover valores educativos, culturais, éticos e sociais, padrões que, segundo a avaliação da entidade, não são compatíveis com a exploração do sofrimento extremo como espetáculo.
O documento, endereçado à executiva Leonora Bardini, responsável pelo conteúdo da emissora, conta com a assinatura de representantes de diversas áreas, incluindo Diva Soares Santana (familiares de mortos e desaparecidos políticos), Vera Facciolla Paiva e Maria Cecília Adão (sociedade civil), a deputada Natália Bonavides (Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados) e a procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga. A carta abre com uma citação de Wagner Moura sobre a transmissão de traumas e valores entre gerações, conectando a responsabilidade da mídia na preservação da memória e na construção de uma sociedade mais justa.
A comissão alerta que a repetição de cenas que remetem à tortura em um contexto de entretenimento pode normalizar a violência e enfraquecer a percepção pública sobre a gravidade de violações de direitos humanos. A CEMDP refuta o argumento de que a participação voluntária dos confinados legitima tais práticas, destacando que o consentimento não anula a proibição de tratamentos cruéis ou degradantes, especialmente em um meio de comunicação de alcance público.
Criada em 1995 e reinstalada em 2024, a CEMDP tem como missão a busca por memória, verdade e reparação para as vítimas da repressão estatal. A intervenção no caso do BBB 26 é vista como parte do esforço contínuo do órgão em manter o debate sobre tortura e suas consequências sociais aceso. A emissora Globo foi procurada para comentar o caso desde sábado (31), mas ainda não se pronunciou.