Por muito tempo, os rituais de beleza, como o skincare e a maquiagem, foram associados à superficialidade. Embora os benefícios do skincare para a saúde da pele sejam cientificamente comprovados, como no caso do protetor solar, o impacto desses hábitos vai além da estética, alcançando o bem-estar psicológico.
Luiz Cantú, doutor em bioquímica e consultor na indústria cosmética, propõe uma nova perspectiva sobre o universo da beleza, desmistificando a ideia de que rotinas de cuidados com a pele e a aplicação de maquiagem são meros atos de vaidade. Ele argumenta que essas práticas podem, na verdade, ser poderosas ferramentas para modular o humor, reduzir o estresse e promover uma sensação geral de bem-estar.
A disseminação desses rituais, impulsionada pelas redes sociais, movimenta uma indústria global bilionária. No entanto, rotinas complexas, como o popular skincare coreano com suas múltiplas etapas, podem parecer excessivas para alguns. A proposta é mudar o foco: e se a maquiagem e o skincare fossem aliados na busca por equilíbrio emocional?
Estudos científicos corroboram essa visão. A criação de rotinas de cuidados, com sua repetição e previsibilidade, contribui para uma maior sensação de controle sobre o dia a dia, auxiliando na diminuição da ansiedade e do estresse. Embora os resultados possam não ser imediatos, a consistência dessas práticas gera um efeito psicológico e comportamental direcionado ao bem-estar.
O toque, elemento intrínseco tanto ao skincare quanto à maquiagem, é um condutor de bem-estar reconhecido. Uma pesquisa de 2005, conduzida por Tiffany Field, demonstrou que a massoterapia pode reduzir em até 31% os níveis de cortisol em indivíduos com depressão e doenças autoimunes, evidenciando o poder do contato físico e do relaxamento.
A maquiagem, em particular, tem sido apontada como uma ferramenta com potencial antidepressivo. Um estudo de 2023 com mais de 2.400 mulheres brasileiras, realizado por Veçoso e colaboradores, observou uma correlação entre o uso frequente de maquiagem e uma menor intensidade de sintomas depressivos. Adicionalmente, uma pesquisa publicada em 2025 por Matori e sua equipe associou o uso de maquiagem a melhores funções cognitivas, físicas e psicológicas em mulheres com mais de 65 anos. A maquiagem, portanto, transcende o embelezamento, tornando-se um convite à auto-observação, uma forma de meditação indireta e um espaço para a exploração da identidade e do lúdico, longe de imposições sociais.
O impacto da aplicação de skincare e maquiagem no bem-estar também foi quantificado. Um estudo de 2024, liderado por Moriya e colaboradores, utilizou eletroencefalogramas para monitorar mulheres durante suas rotinas de beleza. Os resultados indicaram um aumento na autoconfiança e uma diminuição em sentimentos negativos ao longo das etapas. Essa mensuração científica reforça a ideia de que os benefícios vão além dos efeitos dos produtos na pele ou na aparência, sugerindo um impacto mais profundo.
Por décadas, os rituais de beleza foram marginalizados como fúteis ou como uma expressão forçada da feminilidade. Embora possam, de fato, contribuir para a sensação de feminilidade, seu alcance é muito mais amplo. A jornada proposta é explorar a função dos ativos cosméticos, a importância do cuidado com a pele – nosso maior órgão – e desvendar todo o espectro de benefícios que essas práticas de autocuidado podem oferecer, reconhecendo que o indivíduo merece esse investimento em si mesmo.