A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) oficializou uma importante atualização na bula da vacina nonavalente contra o Papilomavírus Humano (HPV), produzida pela farmacêutica MSD. A medida, que confere reconhecimento regulatório ao imunizante, agora abrange a prevenção de cânceres de orofaringe, cabeça e pescoço, além das já conhecidas indicações.
Anteriormente, a vacina já era recomendada para a proteção contra câncer de colo do útero, vulva, vagina, ânus, além de verrugas genitais e lesões pré-cancerosas associadas ao vírus. A nova diretriz se estende a indivíduos de 9 a 45 anos, sem distinção de gênero.
De acordo com a Anvisa, a expansão da indicação baseia-se na capacidade da vacina de prevenir a infecção persistente pelos tipos oncogênicos do HPV (16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58), identificados como os principais agentes causadores desses tipos de câncer. A decisão também considera a demonstração de uma resposta imunológica robusta contra essas cepas virais.
A vacina nonavalente, que protege contra nove subtipos do HPV, está disponível atualmente na rede privada, com um custo aproximado de R$ 800 por dose. Recentemente, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, sinalizou o interesse do governo federal em incorporar esta formulação ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), durante o anúncio de um aporte de R$ 1,4 bilhão ao Instituto Butantan.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente a vacina quadrivalente, em dose única, para meninas e meninos de 9 a 14 anos, e para pessoas imunossuprimidas até os 45 anos. Jovens de 15 a 19 anos que não completaram o esquema vacinal têm até junho deste ano para se imunizar, conforme orientação do Ministério da Saúde.
A Anvisa reitera a importância da vacinação antes do início da vida sexual, uma vez que o HPV é predominantemente transmitido por contato sexual. Dados recentes indicam que, em 2025, as taxas de vacinação atingiram 85,9% entre meninas e 74,3% entre meninos na faixa etária recomendada, ainda aquém da meta de 90% estabelecida.
A vacina quadrivalente, que cobre os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus, é indicada para a prevenção de cânceres de colo do útero, vagina, vulva e ânus, bem como verrugas genitais e lesões pré-malignas. O Instituto Butantan, responsável pela produção nacional do imunizante em parceria com a MSD, destaca que os tipos 16 e 18 também estão associados a casos de câncer de pênis e orofaringe.
Estudos globais reforçam a ligação entre o HPV e a incidência de câncer. Uma pesquisa publicada na revista Nature Medicine pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), revelou que 10,2% de todos os casos de câncer no mundo estão relacionados a infecções, com destaque para o HPV.
A alta eficácia da vacinação tem levado especialistas a considerar a erradicação do câncer de colo do útero nas próximas décadas. A OMS propôs metas ambiciosas para 2030, incluindo a vacinação de 90% das meninas até os 15 anos, 70% das mulheres com rastreamento entre 35 e 45 anos e tratamento adequado para 90% dos casos diagnosticados.
Projeções divulgadas na The Lancet Oncology sugerem que, com a vacinação e o rastreamento em larga escala, a maioria dos países poderá eliminar o câncer de colo do útero até o final do século, potencialmente prevenindo cerca de 13,4 milhões de casos até 2069.
Resultados de estudos internacionais corroboram essa perspectiva. Na Suécia, um acompanhamento de mais de 1,6 milhão de mulheres vacinadas na juventude com a vacina quadrivalente demonstrou uma redução de 63% no risco de câncer invasivo de colo do útero antes dos 30 anos. Para aquelas vacinadas antes dos 17 anos, a redução do risco chegou a 88%.
Na Holanda, mulheres totalmente vacinadas aos 16 anos apresentaram, após 15 anos de acompanhamento, uma diminuição de 92% no risco de câncer de colo do útero e de 81% em lesões pré-cancerosas graves. Na Escócia, não foram registrados casos da doença entre mulheres vacinadas aos 12 e 13 anos, após até 16 anos de observação.
Com a ampliação da indicação da vacina nonavalente, especialistas avaliam que o Brasil dá um passo significativo na estratégia de prevenção de diversos tipos de câncer associados ao HPV.