São Paulo, o coração econômico do Brasil, testemunha um declínio acentuado na construção de mansões residenciais. Se décadas atrás o cenário era de casas suntuosas surgindo a um ritmo acelerado, hoje a tendência é outra, marcando o possível fim de uma era para esse tipo de imóvel de alto luxo na capital paulista.
Um levantamento detalhado, baseado em dados do Cadastro de Imóveis da Prefeitura de São Paulo, revelou que a cidade possui aproximadamente 2.040 imóveis classificados na categoria ‘Padrão F’, o mais alto patamar de luxo residencial. Essas propriedades, que frequentemente ultrapassam os 700 m² e podem chegar a 1.000 m² de área construída, representam um nicho cada vez mais raro.
O dado mais alarmante é a drástica redução na edificação de novas mansões. Enquanto os anos 1970 e 1980 foram o auge, com 447 e 463 unidades respectivamente, a década atual registrou apenas 47 novas construções. Há mais de um ano, inclusive, nenhuma nova mansão foi finalizada na metrópole.
A mais recente dessas residências de luxo, localizada no Jardim Paulistano, soma mais de 1.500 m², ostentando quatro suítes, piscina e oito vagas de garagem. Seu valor estimado é de R$ 57 milhões, segundo informações do levantamento.
Evolução da Construção de Mansões em São Paulo por Década:
Os registros oficiais da prefeitura ilustram a concentração histórica dessas construções:
1910: 1
1930: 4
1940: 14
1950: 28
1960: 46
1970: 447
1980: 463
1990: 334
2000: 375
2010: 281
2020: 47
Por que as Mansões Estão Desaparecendo?
A diminuição na construção de mansões não reflete uma escassez de capital na cidade, mas sim uma convergência de fatores. A pressão do mercado imobiliário por empreendimentos verticais é um dos principais motores dessa mudança. Em áreas com permissão para edificações mais altas, construtoras priorizam prédios residenciais, que oferecem maior retorno financeiro em comparação a uma única residência de grande porte.
A urbanista Lucila Lacreta explica que terrenos antes destinados a casas agora são vistos como ideais para a construção de edifícios completos. Adicionalmente, transformações no perfil das famílias, preocupações com segurança e novas preferências de moradia levam a elite a optar por apartamentos de altíssimo padrão ou por condomínios fechados em regiões metropolitanas mais afastadas.
Bairros que Ainda Preservam o Estilo:
As poucas mansões que ainda se mantêm em São Paulo concentram-se em bairros tradicionalmente residenciais e com restrições à verticalização, como Jardim América, Jardim Europa, Jardim Paulista e Jardim Paulistano. Outras áreas, como Cidade Jardim, Morumbi, Jardim Guedala e Parque dos Príncipes, que a partir dos anos 2000 passaram a abrigar imóveis de alto padrão, também veem suas propriedades sendo demolidas ou vendidas para dar lugar a novos projetos imobiliários.
A Migração para Fora da Capital:
Um fator decisivo na redução do número de mansões dentro de São Paulo é a migração de famílias de alto poder aquisitivo para municípios vizinhos. Condomínios de luxo em cidades como Barueri, Santana de Parnaíba e Porto Feliz tornaram-se os novos centros de ostentação, com empreendimentos que rivalizam com residências históricas.
Mansão Dá Lugar à Cobertura de Luxo:
Dentro da própria capital, a tendência é a troca de palacetes horizontais por extensas coberturas. O mercado de apartamentos de luxo mantém seu aquecimento, com 460 unidades padrão F construídas em 2023, o maior número registrado desde 2011.
Um exemplo notório é o apresentador Faustão, que trocou uma mansão de 3.716 m² no Jardim Guedala por uma cobertura avaliada em cerca de R$ 120 milhões. Já o ex-governador João Doria mantém uma residência de mais de 3.300 m² no Jardim Europa, um dos poucos vestígios desse estilo de vida suntuoso.
Vestígios de uma São Paulo em Expansão Horizontal:
O cadastro municipal aponta uma mansão de 1919 na Vila Nova Conceição como uma das mais antigas. No entanto, registros históricos indicam construções ainda mais remotas. No início do século XX, a elite cafeeira se estabeleceu em bairros centrais como Campos Elíseos e na Avenida Paulista, áreas onde a maioria dos casarões foi demolida ao longo do tempo.
Algumas poucas dessas relíquias arquitetônicas resistem, como a Casa da Don’Anna, projetada por Ramos de Azevedo, que hoje funciona como um espaço cultural e gastronômico, lembrando uma São Paulo que crescia para os lados, e não para o alto.